Adail e o imaginário popular


A definição do que significa Adail Pinheiro para Coari fica bem clara com o que aconteceu, neste sábado (08), no aeroporto Eduardo Gomes, durante a chegada a Manaus dos cinco presos preventivamente, entre secretários e funcionários da Prefeitura de Coari.  Uma mulher, acompanhada de uma moça com um bebê ao colo e um rapaz, os dois visivelmente mais jovens, olham para os repórteres com ares de reprovação, e quando os jornalistas passam ao seu lado, correndo para a área de desembarque dos presos, a senhora diz encolerizada: Vai, bando de urubu, aproveita agora porque Adail vai ficar pouco tempo na cadeia, não vai dar em nada isso que vocês estão fazendo”. Essa situação não é momentânea. Quem já passou um tempo em Coari, já morou por lá, já ouviu essas palavras serem repetidas dezenas de vezes, num vaticínio de que Coari nunca se verá livre de Adail.

Bicho papão

Em Coari, muitos veem Adail como algo sobrenatural, tipo aquela história do bicho papão que povoa as estórias infantis, monstros que se escondem debaixo da cama, ou dentro do armário, e fazem as crianças fugirem pra cama dos pais porque estão com medo de dormirem sozinhas. E não adianta acender a luz, ou fazer a criança ver que não há nenhum monstro debaixo da cama ou dentro do armário, ou ainda  contar uma história de príncipes que matam monstros porque o bicho-papão volta  na noite seguinte e é um pesadelo constante. Assim, crianças molestadas costumam imaginar molestadores, monstros que têm o poder de estar em todo o lugar, que nunca são destruídos, jamais desaparecem.

Imaginário adulto

Mas , esse Adail surreal, sobre-humano, não está apenas no universo infantil. Adail faz parte do imaginário de adultos em Coari. Uma parcela da população para a qual não vão adiantar dezenas de escutas, depoimentos, provas, e que não se sensibilizará nem mesmo com o choro de garotas violentadas e prostituídas. Para essas pessoas, as meninas vão estar mentindo, sempre. Tudo faz parte de uma grande farsa para perseguir o injustiçado Adail. Aquele que dá para a população o vale gás, o vale agricultor, o bolsa escola, o bolsa família, o bolsa estudante – e tem mais um monte de “bolsa auxílio” que foge a memória no momento. Alguém que distribui 04 milhões em brindes no Dia das Mães, e que deu emprego na Prefeitura para quase toda a família das meninas por quem se sente atraído – também para quem alicia essas meninas.

Tudo vê

E Adail é tão sobrenatural no imaginário dessa gente, que eles acreditam que Adail tudo sabe e tudo vê.  Se você tentar fazer alguma coisa contra ele, assim como o bicho-papão, ele vai te pegar e vai tirar tudo que tu tens, sejam os que ganham milhões ou os que se contentam com migalhas do Poder. E, assim como o bicho papão nunca vai acontecer nada com ele, nunca vai desaparecer, sempre vai voltar.

Garota Biz

E isso faz lembrar uma estória que vivi em Coari, em 2008. Na sacada do hotel, vi um grupo de mulheres, falando com naturalidade sobre meninas, das quais elas diziam os nomes e que tinham se transformado em “garota Biz”. Na minha ingenuidade, e levando em conta a forma quase carinhosa com que falavam das meninas, perguntei se a denominação vinha de algum concurso de beleza que havia na cidade, já que as garotas, com uma aparência quase infantil, eram muito bonitas. E o que ouvi como resposta, e jamais esqueci porque me embrulhou o estômago, foi que as tais “garotas Biz” eram meninas que tinham tido envolvimento com o prefeito e para quem ele presenteava com motos da marca Biz.

Apenas uma oração

E isso faz lembrar poesia que diz que o dinheiro tira o homem da miséria, mas não a miséria do homem. Há de surgir alguém que faça o povo de Coari ver que ele mora no município mais rico do interior do Estado, onde há dinheiro para que o povo não viva na miséria. Mas, também tire a miséria da cabeça e do coração de parte do povo de Coari para não ver com naturalidade a iniciação sexual dessas meninas de forma tão precoce, sem respeito, sem sentimento, apenas uma mera troca de “favores”. Que consiga fazer com que mães sintam o dever de proteger suas filhas, de ensinar a elas que não é normal serem objetos sexuais. Que o futuro delas pode ser cheio de oportunidades com educação e trabalho digno. E quando essa miséria for arrancada dos corações e mentes, o bicho-papão não vai passar de um mero monstrinho patético e insignificante, que apenas com uma oração vai desaparecer como por encanto.