Outubro Rosa: laços na lapela, prédios cor de rosa, muita propaganda e pouco atendimento


“Outubro Rosa? Não tem nada de rosa! Nosso outubro é preto.” Assim a amiga e leitora do Radar, Myrna Guedes, lá do município de Tapauá classificou, em tom de revolta, como está a prevenção ao câncer de mama e colo de útero das mulheres do interior, onde mamógrafos continuam encaixotados, desde 2011, sendo deteriorados com o tempo. Um aparelho que custa quase R$ 100 mil se acabando dentro de caixas de papelão, num canto de hospital, por conta de uma mera instalação que custa alguns poucos reais.

E não adiantou as inúmeras denúncias feitas por parlamentares estaduais, nem as críticas feitas pela imprensa local e muito menos a auditoria aberta pelo Governo Federal, para investigar o que os gestores de 823 municípios do País, vários deles do Amazonas, fizeram com os mamógrafos que custaram R$ 4,5 bilhões do orçamento federal para garantir a detecção precoce do câncer de mama e consequentemente a cura da doença – e esses caras de pau ainda dizem que o Governo Federal (ler presidente Dilma) não disponibiliza recursos para a saúde.

Outubro preto

E, em Manaus, passamos a semana lendo em sites, em jornais e vendo nas emissoras de TV locais matérias sobre um atendimento que seria feito no Ambulatório Araújo Lima, Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), das 8hs até às 17hs deste sábado (18) coma coleta de preventivos de colo de útero e exames clínicos de mama. Como em toda a propaganda vista neste mês de outubro, lá vinha mais um slogan publicitário: “HUGV no Outubro Rosa”.

Mas, a imprensa local não fez o mesmo estardalhaço com o fato de que o tal Outubro Rosa do HUGV não passava de 80 fichas, que acabaram exatamente no horário que estava marcado para começar o atendimento, as 7hs da manhã, o que revoltou a longa fila de mulheres que estava na entrada do ambulatório e que chegou lá de madrugada – essa é a cara da nossa saúde pública, não é mesmo? As mulheres reclamaram que 80 fichas não foram distribuídas na fila, mas sim entregues para amigas e parentes de funcionárias do hospital. A direção do hospital negou  – até parece que isso não acontece mesmo, né gente? Muitas mulheres tiveram que voltar pra casa sem atendimento, algumas estavam à beira do choro e disseram que não houve sequer a esperança de serem atendidas em um outro dia. E aí lembrei minha amiga de Tapauá de novo, já que uma situação dessa não tem nada de rosa!

E o mais preocupante é que, entre os critérios a serem preenchidos por essas mulheres para serem atendidas no HUGV, estava: ter acima de 25 anos, ter realizado o último preventivo há dois anos ou mais ou nunca ter realizado o exame. E aí, olhando aquele amontoado de mulheres na porta do hospital, a gente se pergunta o que está acontecendo com o atendimento preventivo de câncer? Por que tantas mulheres não realizam o exame há mais de dois anos? Cadê as outras unidades de saúde que deveriam tratar da prevenção?

E fazem um alvoroço danado, nos apavoram com os altos índices de câncer de colo de útero e de mama no Amazonas, falam da importância do diagnóstico precoce para que essas mulheres não morram da doença, mas cadê o atendimento adequado? Ou será que tudo não passa de uma fita rosa na lapela da camisa, e prédios públicos como da Assembleia Legislativa, Câmara, sede do Governo e até a ponte do Rio Negro ficando cor de rosa, enquanto as mulheres continuam no escuro.

Ah! Ia esquecendo que até o prédio do Tribunal de Justiça ficou cor de rosa, mas será que não era mais proveitoso partir para uma “atitude rosa”, usar da força da Lei, para obrigar o Poder Público irresponsável a fazer algo tão simples como instalar mamógrafos que estão se acabando dentro de caixas. E aí quem sabe não existiria apenas um mês para livrar mulheres da morte e quem sabe a vida dessas mulheres poderia ser mais colorida do que apenas rosa. (Any Margareth)