1,3 milhão de brasileiros desistem de procurar emprego desde o início da pandemia

Agência da Caixa na avenida Ragueb Chohfi, em São Mateus, zona leste de São Paulo, no primeiro dia de saque da primeira parcela do auxílio emergencial 2021 para beneficiários nascidos em janeiro, que não estão inscritos no Bolsa Família Jardiel Carvalho/Folhapress

Agência da Caixa na avenida Ragueb Chohfi, em São Mateus, zona leste de São Paulo,/Jardiel Carvalho/Folhapress

Quase 1,3 milhão de brasileiros deixaram de procurar emprego no primeiro ano da pandemia de Covid-19, apontam dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Esse contigente passou a integrar o grupo de trabalhadores desalentados no país –profissionais que estão sem emprego e que desistiram de procurar novas vagas por acreditarem que não terão vez no mercado de trabalho.

Na visão de economistas, o quadro reflete as dificuldades impostas pela pandemia à busca por trabalho.

Com esse acréscimo, o total de desalentados chegou a 5,952 milhões no trimestre encerrado em fevereiro deste ano, o maior da série histórica do IBGE, com dados desde 2012. Representa mais do que o dobro da população de Salvador (BA), de 2,9 milhões de habitantes.

Mesmo sem trabalho formal ou informal, o grupo não é considerado desempregado. É que, para as estatísticas oficiais, uma pessoa está desocupada quando segue em busca de recolocação profissional com ou sem carteira assinada. Isso não é feito pelos desalentados.

No trimestre até fevereiro, a população desempregada chegou a 14,4 milhões no país, outro recorde da série histórica.

“A pandemia expulsou parte das pessoas do mercado de trabalho, e elas não conseguiram voltar”, afirma o economista Hélio Zylberstajn, professor sênior da FEA-USP e coordenador do Projeto Salariômetro, da Fipe.

O pedagogo e educador físico Alexandre Cordeiro Figueira, 39, sentiu as dificuldades geradas pela Covid-19. Antes da pandemia, ele dava aulas de capoeira em escolas da rede privada e em projetos sociais em Porto Alegre (RS). Com a chegada da crise sanitária, as atividades foram paralisadas em 2020, e o trabalho de Figueira ficou inviabilizado.

Ele diz que, no momento, não faz busca ativa por emprego, devido à escassez de oportunidades em sua área. Para recompor parte da renda perdida, o morador da capital gaúcha chegou a participar de algumas aulas online e fez bicos com o sogro no setor de construção civil, mas tudo de forma “bem espaçada” durante a pandemia.

“A gente conversa com conhecidos sobre trabalho, mas a situação está bem difícil. Não existe aquela busca por emprego com esperança”, conta. “Desejo que a pandemia passe, e tudo volte ao normal. A melhor coisa é o contato com as pessoas”, acrescenta.

Professor do Insper, o economista Sérgio Firpo ressalta que o quadro provoca uma “depreciação do capital humano”. Segundo ele, além do fechamento de postos de trabalho, as restrições a deslocamentos na crise sanitária também favorecem a alta do desalento.

A paralisação de escolas é outro fator que pode afastar parte dos profissionais do mercado, pela necessidade de cuidar dos filhos em casa, completa Firpo.

“É como se estivéssemos jogando fora recursos humanos neste momento. O capital humano se deprecia porque não é utilizado. Isso tem efeitos perversos”, comenta.

Para especialistas, a alta do desalento reforça que o país ainda está distante de alcançar uma retomada consistente na economia e, especificamente, no mercado de trabalho.

“O mercado de trabalho reflete como lidamos com a pandemia. A vacinação tem demorado. Enquanto não vacinarmos a força de trabalho, vamos ter dificuldades”, relata Firpo.

Professora da Escola de Negócios da PUCRS, a economista Izete Pengo Bagolin vai na mesma linha. Ela salienta que a imunização é “básica” para a melhora do ambiente econômico. Conforme Izete, o governo federal também precisaria pensar em projetos que incentivassem a qualificação de trabalhadores e a saída do desalento no pós-pandemia.

“A mensagem até agora é a de que a recuperação ainda não ocorreu. Muitas pessoas foram severamente impactadas pela pandemia, com o afastamento do mercado de trabalho. Vivemos um período de incerteza. Esse ambiente contribui para a alta do desalento”, observa a professora.

Zylberstajn destaca que o nível de recuperação do emprego depende do avanço de investimentos produtivos, além da vacinação. Nesse sentido, o economista afirma que o país deve buscar novas concessões na área de infraestrutura. Projetos nessa área têm capacidade de espalhar estímulos em outros setores, lembra o professor.

“A primeira coisa é a vacina. E a segunda é o país voltar a crescer. Para isso, não tem jeito: é preciso atrair investimentos. O governo não consegue investir. A gente precisa de aportes privados para trazer o mercado de trabalho de volta para a vida”, argumenta.