A cara de um Brasil que eu não via!

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Desde a eleição de Jair Messias Bolsonaro que tenho sido obrigada a encarar um Brasil que eu não conseguia enxergar e que nem acreditava que existisse. Torna-se uma tarefa desoladora até escrever sobre esse Brasil que mais parece saído de um universo paralelo.

Esse Brasil vive em guerra contra inimigos imaginários e tem um povo que vê, por todos os lados, teorias da conspiração encabeçadas por outros países e até por seus próprios cidadãos. Esse Brasil, defende que todo mundo, mesmo os seres mais dementes, andem armados.

Nesse Brasil, os índios atrapalham o desenvolvimento do País, são gente inútil, preguiçosa, feia com aquela pele escura, que fede a mato e não a perfume francês. Os povos da floresta atravancam o progresso que precisa de florestas dizimadas, dando lugar a capim e bosta de gado. Um desenvolvimento que considera garimpeiros melhores que índios, mesmo que deixem rios contaminados por mercúrio e terras onde não nasce mais nada, não importando sequer se são sonegadores de impostos.

Esse é um Brasil que diz conviver bem com as diferenças raciais, a menos que negros queiram frequentar suas salas e namorar seus filhos. Para a gente desse Brasil que eu jurei não existir, cada um tem que se colocar no seu lugar, no lugar escolhido por eles, classe dominante. Nesse Brasil, existe uma gente que se sente superior e que acha que tem todos os direitos, inclusive de escravizar os outros, porque é o povo escolhido por Deus para mandar no país.

Nesse Brasil, pobre é visto como um fardo a ser carregado. Só servem pra procriar e dar prejuízo ao país, pensa a gente desse Brasil que eu não conhecia. Pra eles se alguns milhares de pobres deixassem de existir, seria um avanço para o país.

Nesse país, se cura “gayzisse” de menino com porrada e mulher, ou foi feita pra fica de boca calada, ou é dado o direito a elas de falar apenas pra ser boneco de ventríloquo dos homens.

Esse Brasil, como na música homônima de Cazuza, “mostra a sua cara” em sua maior liderança, Messias Bolsonaro, um ser que vê milhares de mortes como perdas naturais em sua guerra invisível contra não se sabe o quê. Isso fica explícito, em plena pandemia de coronavírus, em sua afirmação displicente de “vai morrer gente sim!”, como se estivesse falando de uma banalidade e fica ainda mais claro quando disse “e daí? Quer que eu faça o quê?” ao ser questionado sobre o número de mortes no Brasil ter ultrapassado a China.

Esse Brasil que, a cada dia, consigo enxergar mais a cara, me deixa desolada de tristeza porque esse não é o meu país. Meu Brasil é repleto de gente linda seja de que cor, de que raça e de que credo for. Um país de gente conhecida por seus talentos, sua música, sua hospitalidade, seu amor ao próximo e por viver em paz. Tantas vezes me pego rezando pra que o Brasil que amo mostre sua verdadeira cara, essa cara que faz inveja ao mundo e é a razão do meu orgulho de ser brasileira.