A censura não é constitucional, não é educadora e muito menos cristã

“Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Essa frase é apontada como sendo de autoria do escritor, ensaísta e filósofo iluminista francês, François-Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire, segundo sua biografia, Mas, há quem diga, que ele nunca a pronunciou. Porém, controvérsias a parte, concordo com ela em gênero, número e grau. Cito essa frase porque ela me veio a mente ao tomar conhecimento, nessa quarta-feira (08) da decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, de censurar o episódio de Natal do Porta dos Fundos, veiculado pelo Netflix.

Há vários ângulos para se avaliar essa situação, mas todos eles levam à mesma conclusão: a censura é a forma mais ridícula e burra que possa existir de encarar o contraditório. Se não for verdade o que estou dizendo, então pra começar me responde: se tantos discordam da forma que os humoristas abordam os assuntos, principalmente religiosos, por que os veem? O Netflix, que é um provedor global de filmes e séries, é pago. Então, você não é obrigado a pagar o Netflix pra ver o que não concorda, né mesmo? Vai procurar outra coisa pra fazer na vida mano, diria minha velha, sábia e, muitas vezes, debochada mãezinha. E ela ainda arrematava: “Vai lavar uma trouxa de roupa!”

Olhando esse caso por outro ângulo, pelo âmbito legal, a decisão da Justiça do Rio de Janeiro é inconstitucional e ponto final. Como já disse antes, uma premissa constitucional não pode ser desrespeitada só porque eu, ou quem for, não concorda com ela. A Constituição Federal, Lei maior desse país, proíbe de maneira categórica “toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” em seu artigo 220 e garante a livre expressão artística, “independentemente de censura ou licença”, nos direitos fundamentais em seu artigo 5.

Se olharmos pelo ângulo da educação dos nossos jovens, eu que criei duas filhas sozinhas, te digo: quanto mais você censurar pior será irmão! Isso vai aguçar mais ainda a rebeldia deles, algo natural que grande parte dos adultos jura de pé junto que não teve – cambada de mentiroso! Fora que, na minha opinião, até pra criar filho tem que ter competência, por isso não imponha, convença! – ou será que você não tem argumentos pra isso? Com essa prática do diálogo e do debate de ideias, você vai criar seres pensantes, idealizadores e ativos socialmente – já viu como nas famílias autoritárias e ditatoriais a rapaziada é meio Tonho da Lua?

Não menos burro e ridículo é o ângulo de encarar a polêmica sobre o episódio de Natal do Porta dos Fundos, ao justificar a censura pela maioria no país ser cristã – repara que eu sou cristã, hein! O Cristo no qual acredito estaria mais preocupado em apascentar almas de homens que querem guerra, causando morte e destruição, do que com uma sátira humorística onde ele aparece como gay. O Cristo que sigo foi capaz de chocar a sociedade de seu tempo não deixando apedrejar e perdoando a mulher adultera, não apoiando o isolamento de leprosos, mas antes se acompanhando deles e curando-os. O Cristo por quem tenho adoração não censurou homens por comerem alimentos proibidos, afinal não foi ele que disse que o mal não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca porque procede do coração (Mateus 15:18-19).

O Cristo no qual tenho fé confrontou a casta da sociedade em que vivia falando sobre a hipocrisia dos fariseus e dos Mestres da Lei. Tudo a ver com este caso, onde o mesmo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que não conteve a sanha de corrupção naquele Estado, agora se preocupa em censurar uma sátira humorística. Esse Cristo que atraiu pra si o ódio e a perseguição dos poderosos da sua época, não acredito que seria a favor da censura.

No momento em que você está lendo esse texto, pode estar me esculachando por não concordar com a minha forma de pensar e eu jamais o censuraria por isso, afinal é um direito constitucional, civil e cristão.