A covardia e violência de estudantes que acabam levando às tragédias

Na noite desta quinta-feira (30) chegou ao meu WhatsApp um vídeo onde um estudante do colégio militar da Polícia Militar (CMPM1) aparece sendo agredido por outro aluno, com o apoio de colegas. Isso me fez lembrar de tudo aquilo que li sobre as causas de tragédias que aconteceram em escolas do país, onde alunos ou ex-alunos, entraram nessas unidades de ensino e mataram outros estudantes.

Em grande parte dos casos, as investigações da polícia desvendaram que essas matanças têm como pano de fundo, estudantes alvos de assédio moral – mais conhecido por bullying –, humilhações e até violência física que, ao longo do tempo, vão acumulando ódio não só dos seus algozes, mas de toda uma sociedade que deveria defendê-los e livrá-los da perseguição de adolescentes cruéis.

Os casos de ataques de alunos aos seus colegas, tem mostrado que esse é um círculo vicioso onde adolescentes vindos de famílias disfuncionais, onde impera a violência, o preconceito, a raiva, a falta de amor e de diálogo, tornam-se valentões covardes que despejam seus recalques, sua infelicidade e seu ódio, sobre outros adolescentes.

Já as meninas e meninos vítimas da violência moral e física, de oprimidos, passam a fazer o papel de opressores para se vingarem das perseguições. Mas o caso é que acabam não só atingindo aqueles que os perseguiram e humilharam, mas outros jovens inocentes que nem tinham nada a ver com o bullying.

Ataques em escolas como a Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, fazem refletir sobre o que deveria ter sido feito para evitar que Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, ex-aluno da escola matasse 12 estudantes entre 13 e 15 anos.

Uma das cartas de suicídio de Wellington dá pistas sobre as causas para tanto ódio. “Muitas vezes aconteceu comigo de ser agredido por um grupo, e todos os que estavam por perto debochavam, se divertiam com as humilhações que eu sofria, sem se importar com meus sentimentos”, escreveu Wellington.

Após a tragédia, o depoimento de um colega, mostra o que pode ter levado Wellington a matar. “Certa vez no colégio pegaram Wellington de cabeça para baixo, botaram dentro da privada e deram descarga. Algumas pessoas instigavam as meninas: ‘Vai lá, mexe com ele’. Ou até o incentivo delas mesmo: ‘Vamos brincar com ele, vamos sacanear’. As meninas passavam a mão nele (…)”, contou. Esses maus-tratos teriam acontecido em 2001. Dez anos depois, em 2011, a chacina em Realengo aconteceu.

Na época muito se falou sobre a falta de segurança para evitar que o rapaz entrasse com duas armas na escola, mas ninguém debateu sobre a proteção que deveria ter sido dada a Wellington quando ele era apenas um garoto e era massacrado emocionalmente e fisicamente. Ninguém apontou a responsabilidade da escola que um dia deveria ter punido severamente adolescentes cruéis, perseguidores e violentos.

E parece que o tempo passa e não aprendemos com as tragédias. Nos resta torcer para que a disciplina e os valores morais cantados em verso prosa pela direção dos colégios militares sejam realmente verdade e não só discurso, que os estudantes que aparecem no vídeo agredindo um aluno sejam identificados e punidos e o rapaz agredido seja protegido e apoiado. Só assim quebraremos o círculo vicioso formado por covardia e ódio.