A estratégia do bom velhinho

Há dias que vem sendo divulgado na mídia local matérias que o ex-governador cassado por crime eleitoral e agora preso sob acusação de participar de um esquema criminoso que desviou mais de R$ 120 milhões da saúde pública está sofrendo de depressão, se recusa a se alimentar, não quer sair da cela… Num vídeo, durante a audiência de custódia, um Melo acabrunhado, ofegante e choroso, aparece criticando o colchão da cela que prejudica sua coluna e o excesso de carapanãs. No vídeo, lá está o mesmo “bom velhinho” da campanha de 2014, se mostrando menos preocupado consigo próprio e mais preocupado com o agravamento da saúde de um de seus ex-secretários exatamente da pasta da saúde, também acusado de corrupção.

E, qualquer um com um mínimo de sensibilidade, se compadece diante da imagem daquele homem idoso e parecendo debilitado, que um dia já foi a autoridade máxima do Estado. E euzinha não sou exceção à regra. Mas, no mesmo momento, me vem à mente, quando fui aos hospitais acompanhar pacientes renais que estavam cadavéricos – não estou exagerando, tá gente! – com dificuldade pra falar, tal nível de cansaço e de fraqueza, que andavam peregrinando de um lado pra outro sem conseguir hemodiálise pra sobreviver. Naquele dia, eu chorei pelo sofrimento deles e de raiva pela impotência de não poder fazer nada.

Na mente me vem ainda a tristeza do menino com o braço atrofiado por não conseguir uma cirurgia ortopédica e as imagens feitas furtivamente pelo Radar no Hospital Adriano Jorge, a desativação da sala de cirurgia, sem equipamentos e sem material cirúrgico. Sem falar da humilhação imposta a pessoas pobres pela secretária do diretor do hospital que parecia se sentir bem com o sofrimento alheio e achar que estava fazendo favor quando tudo é pago com nosso dinheiro – bem diferente do tratamento “respeitoso” dado a Melo desde o momento de sua prisão, segundo ele próprio contou na audiência de custódia.

Bom lembrar ainda de pacientes jogados até no chão de corredores dos hospitais por causa da falta de macas – eles iriam querer o colchão do qual Melo reclama hoje! E as crianças doentes expostas a um calor infernal em enfermarias com o ar-condicionado quebrado. E são tantas as situações que me fazem pensar: como ter piedade desse homem, meu Deus?

E pior ainda é saber que a divulgação na mídia local das “tristezas de Melo” pode ser uma mera estratégia da defesa para vitimizar o governador e transformá-lo novamente naquele “bom velhinho” da campanha eleitoral. E aí quem sabe ele não ganha mais essa “guerra”, não eleitoral, mas dessa vez judicial.