A gente se enternece e aceita as flores, mas não provoque porque pode apanhar com os espinhos

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Sim, é nosso dia! Dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher! Um dia em que recebemos flores e amores! Manifestação de afeto e respeito que enternecem qualquer coração feminino. Mas, há de se pensar, neste dia, porque precisamos de um dia? E, lá me vem à mente, uma mulher que me fez questionar sobre a existência dessa data, alguém que nem ia muito com a minha cara, mas há de se aprender até com quem não gosta de você, né mesmo gente? Afinal, toda unanimidade é burra, porque só agrada a todo mundo quem concorda com tudo. A jornalista Elaine Ramos também era assim, não se importava em desagradar.

Nessa época, trabalhávamos na mesma redação, jornal Amazonas em Tempo, nos áureos tempos em que chefiava a redação, outra mulher que passa bem longe da unanimidade burra, jornalista Hermengarda Junqueira. Num certo Dia da Mulher, alguém decide parabenizar Elaine Ramos pela data e ela dá um daqueles conhecidos “pits”. Enraivecida, Elaine dispara: “ E eu lá tenho dia! Tem dia do homem? Não tem, né mesmo? Eles não precisam de dia! Quem tem dia é minoria oprimida e as mulheres não são minoria e nem eu sou oprimida. Se me oprimir eu parto pra porrada”.

As palavras de Elaine me seguiram pela vida, eu, cabocla, mãe solteira, filha de mestre de obras com doméstica. Toda as vezes que tentaram me oprimir, eu parti pra briga. Na quase absoluta das vezes, não com o uso da força que, torna-se desnecessária, pra quem sabe usar “armas” mais sutis, como as palavras e a atitude, por exemplo. Infelizmente, não deu tempo de contar a Elaine Ramos o que suas palavras me causaram pela vida afora, mesmo que no momento de contar, ela me fizesse alguma desfeita, como sempre fazia, dava de costas, fazia muxoxo com a boca, e me ignorava. Coisas de Elaine! Infelizmente, nossa convivência foi breve, Elaine faleceu, para minha tristeza, porque suas contestações ao meu jeito de ser, me fizeram agir diferente em muitas situações.

Não tenho a mesma reação que Elaine ao Dia Internacional da Mulher. Até o considero importante, como data para lembrar que no Brasil ainda temos muito o que avançar. As mulheres, como bem dizia Elaine, são 51,6% da população brasileira, ou seja, maioria. Também são a maioria do eleitorado brasileiro, 52%. Mas, apesar disso, a decisão sobre o futuro dos nossos filhos, fica na mão dos homens, já que apenas 10% dos candidatos eleitos na última eleição, foi de mulheres. As mulheres ganham menos que os homens, mesmo que tenham currículo semelhante e ocupem a mesma função. O Brasil é o quinto país do mundo com maior mortalidade de mulheres. Em média, 13 mulheres são assassinadas por dia, grande parte das vezes por parentes e parceiros.

E mesmo que a violência não seja física, ela vem travestida de reconhecimento e de elogios por belas bundas e peitos – e nada contra peitos e bundas porque são belos mesmo! Mas, mulher não se resume a isso! Há de se notar o desempenho dramatúrgico de uma atriz que tem belos peitos e bunda. E, por falar nisso, porque ao invés de pregarem que uma mulher não use certas roupas, não pregam que os homens mudem de atitude. Uma mulher tem o direito de usar o que quiser sem ser assediada. Assim como deveria poder se sentir à vontade de sair sozinha sem a macharada pensar que tá caçando homem.

E, o que falar de um poder público que faz uma lambança danada no Dia da Mulher, mas não dá acesso a serviços públicos de qualidade, como por exemplo na área de saúde, onde fazer um simples exame pra se prevenir de câncer, torna-se uma humilhação?

Pois, hoje é dia de mudar de atitude, fazer ver que o complexo de cinderela está só no sapatinho de vidro, lindo, reluzente, mas que serve pra “pisar” na cabeça de machista metido a besta. E, como é próprio dessas mulheres maravilhosas, é hora de subir no salto, seguir em frente, e comemorar nossas lutas, nossa vida e nossos amores. Obrigada pela flores! (Any Margareth)