A Globo esculachando a Globo, ao vivo!

Acredito que foi uma das cenas jornalísticas mais inusitadas da minha vida! Lá estávamos nós na redação do Radar, vendo a Globo transmitir, ao vivo, a saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, após 580 dias preso. O inusitado da história foi a Globo transmitir seu próprio esculacho. Em seu discurso para os militantes do PT, da esquerda e dos movimentos sociais que o esperavam, Lula vira e mexe largava a peia na Globo, acusando-a de participar da trama que, segundo ele, “criminalizou o PT e os partidos de esquerda”, o levou à prisão e fez chegar no poder a ultradireita para acabar com os direitos dos trabalhadores.

E enquanto via a Globo transmitir seu próprio esculacho público, eu ficava pensando cá com meus botões: eu tinha que estar viva pra ver isso! Na minha cabeça, passou um filme de anos atrás. Tempos em que eu era apenas uma menina, mas cabocla desconfiada que sou, ficava questionando os motivos para uma emissora de televisão ficar visivelmente defendendo a realização de eleições indiretas, falando ser necessário um “período de transição” entre os governos militares e a redemocratização do país onde seria devolvido o direito do povo escolher nas urnas seus governantes.

Mas isso não é certo, pensava eu naquele momento. Afinal, o povo pedia nas ruas eleições diretas! Muita gente morreu pela redemocratização do País, muitos sumiram, alguns nem os corpos foram mais achados para entregar para suas famílias. Mas a Vênus Platinada parecia mandar no País – pelo jeito ainda manda! As respostas para muitas das minhas perguntas vieram através dos livros, minhas favoritas e melhores companhias desde essa época, como por exemplo, “O Complô que Elegeu Tancredo”, livro dos jornalistas Gilberto Dimenstein, José Negreiros, Ricardo Noblat, Roberto Lopes e Roberto Fernandes – nesse tempo já se falava sobres complôs e tramas da Globo.

Nessa época, a Globo recebia esculacho ainda piores do que aqueles do discurso de Lula. O povo virou carro de reportagem da Globo na rua e tocou foco. Os manifestantes pró-diretas gritavam nas ruas: O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo – mas isso a Globo não mostrava.

Mas dessa vez a Globo mostrou seu próprio esculacho, assim como também pôde se visto o sorriso amarelo e a cara de constrangimento de William Bonner. E fiquei ali saboreando em frente a TV esse raro momento de democracia, onde um esculacho não faz mal nenhum.