A pandemia de mentiras que nos adoece

A pandemia do novo coronavírus, que trouxe à tona o caos da saúde pública no Brasil, especialmente no Amazonas, é responsável por outra pandemia: a da rede de mentiras e do jogo do empurra-empurra que nos adoece silenciosamente. Acordei no final de semana com a triste denúncia de que os técnicos de enfermagem do Hospital 28 de Agosto podem paralisar as atividades porque não têm sequer luvas e máscaras para trabalhar. Luvas e máscaras minha gente! Aqueles itens básicos, mas bem básicos mesmo, e que não deveriam faltar em nenhuma unidade de saúde.

Aí começa a pandemia da mentira e do empurra-empurra: o Governo diz que recebeu toneladas de equipamentos básicos de proteção (EPIs) e que já há até mesmo produção própria de EPIs por uma Universidade local. Mas, todo esse material que supostamente está disponível, não chega aos profissionais. E nem mesmo os órgãos de controle externo das administrações públicas descobrem quais os motivos pra isso estar acontecendo? Quem está enganando a gente?

Na propaganda do Governo, os profissionais da saúde têm tudo que é necessário para os atendimentos.

Mas, a vida real chega ao Radar através de imagens, fotos e mensagens com pedidos de socorro. Técnicos de enfermagem clamam por ajuda e doações nas redes sociais e médicos faltam plantões porque as unidades de saúde não têm condições de atendimento.

Até mesmo o número de leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTIs), tão necessários para a sobrevivência dos pacientes com Covid-19, chega através de informações desconexas. O anúncio do governador feito no dia 20 de março, ou seja, há mais de um mês atrás, era de que seriam abertos 350 leitos no Delphina Aziz, 100 de imediato. Mas o próprio governo de Wilson Lima se desmentiu ao repassar informação para o Ministério da Saúde de que 69 leitos estavam em funcionamento, segundo dados tornados públicos em Live do Governo Federal sobre a pandemia do novo coronavirus nos Estados. Mas pensa que o disse me disse e o leto lero parou por ai? Nadica de nada! De repente os 69 leitos viraram 50 pela boca de ninguém menos que um deputado governista que contou ter ido visitar o Delphina Aziz e só ter encontrado 50 leitos.

Enquanto isso, pacientes se aglomeram nos hospitais em busca de atendimento, uma mulher morre, sem atendimento, em frente a um hospital de campanha do Estado recém-inaugurado (desqualificado por falta de equipamentos e insumos pelo Ministério Público e o Conselho Regional de Medicina) Mesmo com um vídeo mostrando tudo que aconteceu, o Governo tem a desfaçatez de dizer que não houve recusa no atendimento. Essa mentira provoca indignação, afinal foi um ser humano que morreu. Essas cenas que não nos deixam dormir e que colocam em xeque o valor que têm sido dado à vida.

Até quando e quanto vale a pena mentir e tentar enganar a população com marketing, propagandas bem feitas e cenas editadas? O que muitos governantes esquecem é que, mais do que ver, o povo sente. E nesse caso, tem sentido na pele a dor do descaso, da falta de atenção e das mentiras.

Sente a falta do básico: atendimento. Para combater uma pandemia, a primeira coisa a se fazer é saber a capacidade instalada para enfrentamento da doença e atendimento aos doentes. Nem isso temos.

Além disso, é necessário proteger aqueles profissionais que estão na linha de frente do combate à doença, os que arriscam a vida para salvar outras vidas: médicos e demais profissionais de saúde precisam ter máscaras, luvas e uma roupa especial para se protegerem. Também não temos isso.

O que temos e, infelizmente de sobra, são corpos – 304 mortos pelos números oficiais em meio aos mais de 1.450 enterros em menos de um mês – e cada vez mais pessoas doentes, não só de Covid-19, mas sentindo a dor que dá no peito e na alma de tanta mentira e enganação.