A revoltante história da luta judicial para não salvar vidas

É nessas horas que a gente sente na pele o quanto é difícil cumprir essa tarefa de ser uma contadora de histórias – definição que costumo dar para a função de repórter. Digo isso porque é terrível escrever uma história onde o protagonista está mais pra bandido que mocinho. Nesse caso, quem deveria ser o “herói” se nega a salvar vidas.

Essa é a história que tem se desenrolado sobre a compra de vacinas para imunizar a população do Amazonas. Diante de um governo federal omisso e incompetente para tratar da imunização da população brasileira, o governo do Amazonas decidiu agir na contramão de governadores, como o de São Paulo, João Dória, por exemplo, que decidiram travar uma batalha política e judicial para imunizar a população o mais rápido possível e evitar o crescente número de infectados e mortos por coronavirus.

É triste e revoltante ter que escrever que, no mês passado, a decisão da juíza titular da 1ª Vara Federal Cível do Amazonas, Jaiza Fraxe, obrigando o governo de Wilson Lima a comprar vacinas, foi suspensa após um recurso do próprio governo para se desobrigar a fazer isso.

Diante do número cada vez maior de mortos por Covid-19 no Amazonas, a decisão determinava a máxima urgência na imunização de 70% da população dos municípios de Manaus, Manacapuru, Tefé, Iranduba, Itacoatiara, Parintins, Coari e Tabatinga, cidades do Amazonas que apresentam os maiores registros de casos e mortes pela doença.

A juíza federal até autorizou o uso de R$ 150 milhões o Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Estado (FTI) para a compra “urgente, prioritária e essencial” de vacinas contra a Covid-19.

Mas o governo de Wilson Lima contestou a decisão e conseguiu uma liminar que o desobrigasse a correr atrás da compra de vacinas e de salvar a vida do povo amazonense. Esse é o mesmo governo que justificou a compra de respiradores, ou melhor dizendo ventiladores pulmonares, superfaturados, por causa da pressa de salvar a vida de pacientes de Covid-19.

E depois da decisão judicial autorizando o governo de Wilson Lima a não ter pressa e nem obrigação de comprar vacinas, não se ouve mais nem se falar nesse assunto e os homens da Lei e do governo parecem continuar dormindo tranquilos mesmo com mais de 12 mil mortos por Covid-19 no Amazonas.