A Semana Santa dos homens perversos

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O que se viu em plena Semana Santa foram cenas dantescas da perversidade humana, cenas que, para meu espanto e tristeza, são vistas com normalidade por muita gente. No Brasil, infelizmente, existe a banalização da fome como se a miséria humana fosse algo normal e os famintos fossem seres invisíveis. O que dizer de um país, onde o presidente da República nega a existência da fome. “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, disse Messias Bolsonaro.

As imagens que os repórteres do Radar transmitiram do bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste de Manaus, na terça-feira passada (12), é uma prova incontestável de como aqueles que se autodenominam cristãos tratam quem tem fome no Amazonas. Cenas de homens e mulheres, algumas com crianças de colo, idosos e grávidas, todos debaixo de chuva, numa fila de quilômetros, muitos dessas pessoas desde a noite do dia anterior, em busca de uma sacolinha de peixe pra alimentar a família, são o retrato da fome nos dias atuais e da humilhação que é imposta a esses seres humanos.

Isso aconteceu durante a entrega de peixes de um programa do Governo do Estado, “Peixe no Prato”, custeado com o nosso próprio dinheiro, o dinheiro do contribuinte amazonense. A distribuição poderia ter sido descentralizada, quem sabe nas escolas, ou em outros equipamentos públicos, com distribuição de senhas, tudo organizado para não trazer ainda mais sofrimento para quem já está sentindo a dor da fome.

Mas o caso é que eles precisam dessa aglomeração de gente faminta, da existência de um “show” de assistencialismo cruel para comprovar que são homens públicos bondosos e cristãos e garantir o voto em ano eleitoral. Tudo faz parte da política que não te dá a dignidade do trabalho, mas tão somente a humilhação da esmola. Como diz a música do poeta Chico César: Deus me proteja da maldade de gente boa”.

E jamais esquecerei também as cenas que chegaram ao meu WhatsApp do apresentador de programa da TV A Crítica, Mario César Filho, uma emissora de televisão de proprietária que diz ser evangélica, fazendo sorteio de comida pra ter ganhos políticos já que é pré-candidato.

“Dai de comer a quem tem fome”, (Mateus,14,16), disse Jesus. Mas a comida dada tão somente por amor ao próximo, sem chantagem política, sem interesses outros que não sejam de acabar com o sofrimento da fome de alguém.

E para alimentar uma multidão da qual Jesus teve compaixão ele fez o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (MC 6,34-44). E no governo de Wilson Lima, o milagre foi feito de forma inversa. Os peixes do programa “Peixe no Prato”, pagos com dinheiro público, sumira e foram aparecer sendo distribuídos por políticos que o apoiam. E bem na Semana Santa quando Jesus foi crucificado e morto para salvar a humanidade.

E assim como fez Pôncio Pilatos no julgamento que condenou Jesus Cristo, as autoridades do Amazonas lavaram as mãos e não fizeram nada para impedir ou punir a perversidade política.