Aliado de Cunha é pressionado a renunciar à presidência interina da Câmara

No dia em que a Câmara dos Deputados assistiu à queda de seu presidente, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) — ejetado do cargo após decisão histórica e unânime do STF (Supremo Tribunal Federal) —, os deputados passaram o dia em especulações e negociações de olho na próxima vítima: o primeiro vice-presidente da Casa, Waldir Maranhão (PP-MA).

O deputado assumiu nesta quinta-feira (5) a presidência interina da Câmara e, como primeiro ato, encerrou a sessão no plenário pela manhã, causando a revolta de parlamentares anti-Cunha, como lideranças do PSOL, PCdoB e PT.

A decisão, no entanto, deu gás para a articulação de bastidores, com parlamentares participando de reuniões fechadas em seus gabinetes e na residência oficial de Cunha ao longo de toda a quinta.

Para a “tropa de choque” de Cunha, formada por integrantes do chamado “centrão” (PTB, PSC, PSD e PSB), e para os partidos da oposição (PSDB, PPS, DEM e SD), Maranhão “não tem condições” de presidir a Casa porque “não resistiria às pressões do cargo”.

Por isso, eles pressionam Maranhão a renunciar ao cargo e, assim, forçar uma nova eleição para a primeira vice-presidência da Câmara — e, consequentemente, para a presidência interina da Casa.

Um dos principais locais de negociação ontem foi a residência oficial do presidente da Câmara, que virou ponto de peregrinação de aliados. Passaram pelo local o líder do PP na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PB), e os deputados Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), Beto Mansur (PRB-SP), Rodrigo Maia (DEM-RJ), Wellington Roberto (PR-PB), entre outros. A reunião se estendeu até depois das 22h30.

Aliados de Cunha chegaram a sugerir que o peemedebista renunciasse à presidência, negociando em troca a manutenção de seu mandato. Como o Supremo também o afastou do seu mandato, líderes consideram “muito difícil” ele renunciar. Com isso, o cargo de presidente da Câmara não estará vago, o que torna impossível a realização de nova eleição.

Pela interpretação do regimento interno feita pela Secretaria-Geral da Mesa Diretora, só seria possível eleger um presidente da Casa em caso de morte, renúncia ou perda de mandato, o que não é o caso de Cunha. Com isso, pela interpretação da Mesa, Waldir Maranhão tem o direito de permanecer presidindo interinamente a Câmara enquanto Cunha estiver afastado.

Se Maranhão renunciar, o segundo vice da Câmara assume interinamente o comando da Casa e, em até cinco sessões, deve convocar novas eleições para o posto de primeiro vice-presidente, que, depois de eleito, viraria presidente interino.

Nesse caso, outros partidos também poderiam concorrer ao posto. Cunha, então, poderia atuar para manter um deputado de sua confiança no comando da Casa.

Assessores de Maranhão, contudo, classificaram como “absurdas” as especulações sobre uma possível renúncia ao cargo. Segundo os assessores, “é impossível isso acontecer”.

Teto de vidro

Além da ameaça dos “colegas”, Maranhão está sob pressão por seus próprios feitos, já que ele é investigado formalmente pelo STF, em três inquéritos: o 3784, o 3787 e o 3989 — este último referente às investigações da Operação Lava Jato.

O parlamentar foi citado pelo doleiro Alberto Youssef como um dos deputados do PP beneficiados por propinas de contratos da Petrobras. Seu partido é o que tem mais políticos investigados.

Nas duas outras investigações ele é acusado pelos crimes de lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos ou valores.

Sua proximidade com Cunha também se torna uma ameaça em meio à disputa política. Como primeiro vice-presidente da Casa, ele já tomou algumas decisões que contribuíram para retardar o processo contra Cunha no Conselho de Ética — julgamento que pode levar à cassação de mandato.

Em dezembro, por exemplo, Maranhão acatou recurso apresentado pelo deputado Manoel Júnior (PMDB-PB), outro forte aliado de Cunha, para destituir o primeiro relator da denúncia no Conselho de Ética, deputado Fausto Pinato (PP-SP). A decisão fez a análise da denúncia retornar praticamente à estaca zero.

Já em abril, o vice decidiu que as investigações do conselho deveriam se limitar à acusação de que Cunha mentiu na CPI da Petrobras sobre possuir contas no exterior, proibindo o órgão de apurar as acusações de que ele recebeu propina.

Antes disso, ainda no ano passado, Maranhão já havia tomado também algumas decisões que resultaram no adiamento de sessões do conselho, contribuindo para a lentidão do processo.

Politicagem

Em seu terceiro mandato consecutivo, o parlamentar é vacinado no jogo político, tanto que manteve uma posição dúbia durante votação de impeachment.

Ele foi alvo de holofotes recentemente após votar contra o prosseguimento do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Isso porque Waldir mudou de voto em cima da hora e a atitude contrariou a orientação nacional do PP, seu partido. Devido à atitude, o deputado foi destituído da presidência do diretório estadual do partido no Maranhão.

Apear das ameaças, Maranhão fez questão de usar ontem o gabinete oficial da presidência da Câmara. Ao chegar pela manhã, Maranhão seguiu diretamente para a sala da presidência, ocupada por Cunha até a noite de quarta-feira (4). O presidente interino usou a sala para receber outros deputados e chegou, inclusive, a sentar na mesma cadeira que o peemedebista costumava usar.

Ao saber do gesto, o primeiro secretário da Mesa Diretora, deputado Beto Mansur (PRB-SP), foi até o gabinete e orientou Maranhão a deixar o local. Disse que o gesto tinha um efeito simbólico muito forte e sugeriu ao deputado do PP que Cunha não tinha gostado. Antes de chegar à Câmara, Mansur esteve com Cunha.

Após o conselho, Waldir Maranhão decidiu deixar a sala e seguiu para seu gabinete de vice-presidente, onde continuou a receber outros deputados. De lá, só saiu para almoçar com outros parlamentares aliados fora da Câmara.

Embora tenha passado o pito no colega, Mansur descartou a realização de nova eleição.

— [Maranhão] foi eleito vice-presidente, vai assumir a presidência da Câmara e vamos procurar ajudar nesse momento. A Casa precisa andar. Waldir Maranhão é deputado como todos os outros. Estamos discutindo a preservação da instituição.

Fonte: R7