Amazon busca ir além da web e ganhar mercado com lojas físicas

Boa tarde, posso ajudar? O quiosque no shopping de luxo é da Amazon, mas a atendente não é a Alexa, a famosa assistente virtual da loja online. Ela se levanta do balcão e sorri para ajudar uma mãe cujos dois filhos testam brinquedos da Marvel. Eles imploram chorosos para comprar a mão gigante do vilão Thanos.

Esses meninos já vieram aqui sete vezes. Acho que agora ela compra, cochichou a atendente para seu colega, antes de avisar a mãe: Esse brinquedo sempre esgota online.

Depois de quebrar livrarias e lojas pelo mundo, a Amazon está agora se materializando em espaços físicos, dentro de seus planos de expansão no varejo e outras searas, como serviços de saúde e bancários. Nos EUA, já são 38 lojas em 10 estados, incluindo supermercados ultra tecnológicos.

Em muitos aspectos, a Amazon tem sido uma força para o bem. Ela eliminou a complacência e fez todos [no varejo] melhorarem seu jogo. Quem ganha é o cliente, diz a analista Natalie Berg, coautora do livro recém-lançado Amazon: Como o Varejista mais Incansável do Mundo Continuará Revolucionando o Comércio (ed. Kogan Page, sem lançamento no Brasil).

Como seria sem a Amazon? Os consumidores seriam mais tolerantes com serviços medíocres.
Além de ver oportunidade na ineficiência das lojas físicas, a Amazon quer abocanhar outros fluxos de receita e diminuir gastos com entregas, que mais do que dobraram de 2015 para 2017 para US$ 22 bilhões, segundo Berg. O futuro do varejo não é só online ou loja física. Se eles ficam só no virtual, perdem outras formas com as quais o consumidor gosta de comprar.

Perceber ineficiências e transformá-las em lucro é o modus operandi perspicaz de Jeff Bezos, seu fundador, presidente-executivo e homem mais rico do mundo. Um de seus produtos virtuais mais lucrativos surgiu quando ele percebeu ser mais vantajoso armazenar dados na nuvem do que comprar e manter galpões de servidores. Ao dominar a tecnologia para seu próprio site, passou a vender o serviço, que registrou receita de US$ 25 bilhões em 2018.

No mundo físico, a empresa tem feito experimentações. O quiosque da Amazon no shopping de Los Angeles muda de tema a cada dois meses. No início do ano, fez parceria com a Mattel e encheu as prateleiras de Barbies. Os produtos são escolhidos entre os mais vendidos e bem avaliados online. Além do preço, trazem resenhas aleatórias tiradas do site.

Quem bom que finalmente fizeram um Hulk sorrindo, chega de cara feia, escreveu um cliente que deu quatro estrelas para um brinquedo do super-herói verde. A atendente também avisa que, se o preço no site estiver mais baixo, é cobrado o menor.

No andar abaixo do mesmo shopping, a Amazon tem uma livraria, aberta em 2017. O local está fechado temporariamente para reformas. Em março, um ex-funcionário causou um incêndio ao pôr fogo em livros. Ele estava armado e foi preso; ninguém ficou ferido.

Das 38 lojas físicas da Amazon nos EUA, 19 são livrarias e 12 são mercados de última geração chamados Amazon Go, sem caixas registradoras ou filas. O mais recente abriu em Nova York neste mês. O cliente só precisa de um aplicativo para poder passar pela catraca do supermercado e, uma vez dentro, é só pegar o que precisa e ir embora.

Os itens são incluídos automaticamente num carrinho virtual e pagos automaticamente com sua conta da Amazon ao sair do mercado. São como as tecnologias dos carros autônomos, diz a empresa, citando visão computacional, sensores e algoritmos.

Apesar do entusiasmo de alguns nova-iorquinos com a novidade, houve reclamações, principalmente de rivais comerciais. O modelo implacável de negócios da Amazon levará a perdas maciças de empregos que podem prejudicar toda a economia, disse Marc Perrone, presidente do sindicato que representa mais de 30 mil trabalhadores da indústria alimentar e comercial.

A Amazon opera também 460 unidades do supermercado de comida saudável Whole Foods nos EUA, Canadá e Reino Unido. A rede foi adquirida em 2017 por US$ 13 bilhões.
Outra compra de impacto veio no ano seguinte, jogando os tentáculos da Amazon sobre o setor de saúde: a startup de farmácia online PillPack por US$ 753 milhões. A firma organiza e entrega em casa medicamentos com receita, um serviço em geral feito pessoalmente nas farmácias.

Por enquanto, a startup parece peixe pequeno para assustar gigantes como CVS e Walgreens, que juntas entregam 3,5 bilhões de prescrições por ano e possuem 20 mil farmácias pelos EUA. Porém, o país tem um sistema de saúde tão precário que parece um daqueles problemas perfeitos que Bezos adora transformar em ouro.

Cortar o intermediário também vale para bancos. Em 2018, o Wall Street Journal informou que a Amazon negociava com grandes instituições financeiras para oferecer aos seus clientes um serviço de conta-corrente. Atualmente, já existem cartões de crédito da Amazon, em parceria com bancos locais, que devolvem 3% do valor das compras feitas no site ou no Whole Foods.
Há também o Amazon Cash, serviço que permite ao consumidor sem cartão ou conta-corrente recarregar sua conta da Amazon com dinheiro em lojas físicas afiliadas.

Com uma conta-corrente Amazon, analistas acreditam que a empresa não quer virar um banco propriamente, mas sim ganhar acesso a dados financeiros dos clientes e reduzir taxas que paga por cada um dos bilhões de transações que ocorrem no site.
Tal volume, aliás, vem sendo estudado por pesquisadores independentes e economistas da própria Amazon para criar um novo modelo para medir índices de inflação no país.

LUA

Enquanto a Amazon caminha para dominação planetária, seu fundador também segue com a cabeça no mundo da Lua. Em maio, num evento e Washington, ele anunciou os planos ambiciosos de sua outra empresa, a firma espacial Blue Origin, fundada em 2000. Vamos voltar à Lua, e dessa vez para ficar, disse.

Ele exibiu um protótipo de um módulo lunar que poderá pousar suavemente na superfície da Lua com algumas toneladas de carga, experimentos científicos e eventualmente astronautas. Bezos também falou do foguete de duas fases New Glenn, que deve ter seu primeiro voo em 2021. Ainda neste ano, a Blue Origin quer começar a levar turistas para voos curtos suborbitais.