Amazonas não participa de levantamento ‘Um vírus e duas guerras’ sobre feminicídio no Brasil

Apesar de registrar diversos casos de feminicídio notificados e destacados pela mídia durante este ano, o Amazonas é um dos sete estados brasileiros que não colaboraram com a pesquisa ‘Um vírus e duas guerras’, realizado pelo Instituto AzMina, que monitora os casos de deste tipo de crime e de violência doméstica durante a pandemia da Covid-19.

Apesar da falta das informações, que podem causar sub-notificações para avaliações nacionais sobre esse tipo de crime no país, a pesquisa indicou que nos primeiros seis meses, desde o início da pandemia da Covid-19, três mulheres foram mortas a cada dia, em crimes motivados pela condição de gênero no Brasil. O levantamento foi realizado com informações oficiais das secretarias de segurança pública de 19 estados brasileiros, que participaram do monitoramento.

Segundo a diretora do Instituto AzMina, Helena Bertho, em alguns casos é difícil obter os dados de órgãos oficiais. “Isoladas dentro de suas casas, as mulheres continuam ou estão ainda mais expostas à violência. Apesar dos dados oficiais indicarem queda no número de casos, muitos especialistas alertam para a sub-notificação, que, estima-se, seja ainda maior em meio à pandemia, pela dificuldade de comunicação”, relatou.

De acordo com o levantamento, os estados que registraram o maior número de casos de feminicídio foram São Paulo, com 79 casos; Minas Gerais, 64 casos e  Bahia, 49 assassinatos de mulheres.

No total, os estados que fazem parte do levantamento registraram redução de 6% no número de casos em comparação com o mesmo período do ano passado. Das 19 unidades federativas pesquisadas, 11 estados e o Distrito Federal tiveram redução no número de mortes, sendo que o DF teve a maior queda percentual: 56%.

Em números absolutos, Rio Grande do Sul e DF registraram, respectivamente, 18 e 10 mortes a menos do que em 2019. A maior redução nos casos de feminicídio. Já o Pará e o Mato Grosso foram responsáveis pelo maior aumento estre os estados pesquisados. Foram registrados 15 crimes a mais no Pará e 10 no Mato Grosso em relação ao ano passado.

Amazonas

No Amazonas, casos como o assassinato da Miss Manicoré, Kimberly Karen Mota de Oliveira, de 22 anos, morta pelo namorado em maio deste ano, na cidade de Manaus, pode ser citado como exemplo de ocorrência que não entrou para o levantamento do Instituto. O suspeito do crime, Rafael Fernandes, que era namorado de Kimberly, confessou a autoria do assassinato e disse ter sido motivado por ciúmes.

Outro caso parecido e mais recente foi o assassinato da jovem Emilaine de Souza, de 19 anos, morta com 35 facadas, no dia 29 de setembro, dentro de sua residência, no bairro da União, zona centro-sul da capital amazonense. O autor do crime, o enfermeiro André Felipe dos Santos, mantinha um relacionamento aberto com a vítima, mas motivado por ciúmes acabou assassinando a jovem.

De acordo com informações da Ponte Jornalismo, que é parceira na ação de monitoramento dos feminicídios, a agência Amazônia Real solicitou os dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-AM), no dia 25 de maio. Primeiro, a Secretaria comunicou que não registrou mortes de mulheres por feminicídios, entre os meses de janeiro a abril de 2020.

Outra estatística enviada à agência, no entanto, informava oito feminicídios ocorridos em Manaus, nos primeiros quatro meses do ano. A agência questionou os dados e a SSP explicou que se tratava de casos suspeitos de feminicídio, isto é, que ainda estavam em investigação, pela Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS). A SSP acrescentou ainda que fosse procurada a delegacia para prestar as informações solicitadas.

Procurada pela reportagem do Radar Amazônico, a SPP não esclareceu o ocorrido. Foram solicitados os dados de feminicídio no Amazonas durante este período de pandemia, mas até o fechamento da matéria não foi obtida resposta por parte do órgão.

Um vírus e duas guerras

A série “Um vírus e duas guerras” vai monitorar os casos de feminicídios e de violência doméstica até o final de 2020. O objetivo é dar visibilidade a esse fenômeno silencioso, fortalecer a rede de apoio e fomentar o debate sobre a criação ou manutenção de políticas públicas de prevenção à violência de gênero no Brasil.

A ação é resultado de uma parceria do instituto AzMina com as mídias independentes:   Amazônia Real, Agência Eco Nordeste, #Colabora, Portal Catarinas, Marco Zero Conteúdo e Ponte Jornalismo.  As unidades da federação que fazem parte da amostra concentram 94% da população feminina do País.

Estados participantes

O levantamento é feito a partir dos registros de feminicídios e violência doméstica das secretarias de segurança pública dos estados do Acre (AC), Alagoas (AL), Bahia (BA), Distrito Federal (DF), Espírito Santo (ES), Maranhão (MA), Mato Grosso do Sul (MS), Minas Gerais (MG), Mato Grosso (MT), Pará (PA), Pernambuco (PE), Piauí (PI), Rio de Janeiro (RJ), Rio Grande do Norte (RN), Rio Grande do Sul (RS), Rondônia (RO), Roraima (RR), Santa Catarina (SC), São Paulo (SP) e Tocantins (TO). Solicitados, os demais 7 estados não forneceram dados.

AzMina

Com o lema ‘Jornalismo, tecnologia e informação contra o machismo’, AzMina é um instituto sem fins lucrativos que combate os diversos tipos de violência que atingem mulheres brasileiras. O Instituto produziu uma revista digital, um app de enfrentamento à violência doméstica, uma ferramenta de monitoramento dos direitos das mulheres no Congresso Nacional, além de campanhas para combater a violência contra a mulher no Brasil.

 Nota da SSP 

Os dados disponíveis foram respondidos à reportagem, conforme solicitado. Acesse o site da SSP no endereço www.ssp.am.gov.br e consulte o ícone ssp dados, onde os dados da capital já estão disponíveis para acesso a toda a população.
Sobre a rede de proteção, informamos que o sistema de Segurança possui 3 delegacias especializadas na capital, além de unidades para atendimento no interior; e o projeto Ronda Maria da Penha, da PM, que atende mulheres vítimas de violência. 
Sobre os demais órgãos da rede de proteção, que envolve outras secretarias estaduais, defensoria, MP, legislativo e judiciário recomendamos que busquem informações com cada um dos órgãos.