Amazônia também tem neve, mas perdeu mais da metade dessa cobertura em 25 anos

Lalo de Almeida/Folhapress

O bioma amazônico presente nos países sul-americanos perdeu cerca de 52% da sua área de neve de 1985 a 2020. Sim, você não leu errado: também há neve na região. Além disso, de toda a cobertura vegetal da Amazônia, 15% já foram devastados -uma área comparável ao tamanho do Chile.

Essa destruição, alertam cientistas, pode estar se aproximando de um ponto sem volta.
Mas o que significa gelo na Amazônia? Basicamente, diz respeito às áreas em que o bioma está na zona da Cordilheira dos Andes, onde, devido às elevadas altitudes, há neve.

O levantamento MapBiomas Amazônia, lançado nesta quinta-feira (30), é fruto do trabalho realizado pela RAISG (Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas) em parceria com o projeto Mapbiomas.
“Bolívia, Peru e Equador pegam uma porção dos Andes, onde há geleiras”, afirma Cícero Augusto, coordenador técnico do MapBiomas. Segundo o especialista, os dados não permitem apontar o motivo exato dessa diminuição na cobertura de neve.

Logicamente, em 2021, com eventos extremos ocorrendo diante dos nossos olhos, a crise climática aparece como uma das principais suspeitas da diminuição do gelo. Isso tem sido registrado em diversos locais ao redor do mundo.

Para citar só um exemplo, nos Alpes no norte da Itália, um grande lençol branco é usado para tentar evitar ainda mais derretimento de uma geleira -que já teve perda de uma porção- importante para o turismo de esqui da região.

“Mas não dá para afirmarmos isso [a influência da mudança climática] neste momento. Como são as primeiras análises, agora que vamos nos dedicar a entender”, diz Augusto.
Já para a perda de vegetação, as respostas são mais claras.

Considerando todo o bioma amazônico, em 1985, a floresta -que, inclusive, tem algumas características diferentes nos países em que está presente- só tinha 6% de sua vegetação transformada em área antrópica, ou seja, convertida para pastagem, mineração, infraestrutura, entre outros. Em 2020, o valor chegou a 15%, o que equivale a quase o tamanho do Chile, ou 74,6 milhões de hectares.
E a preocupação não é só com o que foi perdido até o momento, mas com o que pode acontecer caso a destruição da floresta não seja interrompida.

Segundo Augusto, um ponto de ruptura, gerado pelo desmatamento excessivo, pode não estar tão distante, considerando o ritmo de destruição atual. Se esse estágio for atingido, a saúde da floresta não resistirá, causando um processo de savanização do bioma, ele alerta.

E o Brasil tem um papel importante nisso, considerando que detém a maior parte da floresta e é também o responsável pela maior perda proporcional de vegetação.
Nos últimos dois anos, o desmatamento ficou acima de 10 mil quilômetros quadrados, números elevadíssimos para o histórico recente. Os dados são produzidos pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Se a situação não for revertida, os próximos anos acumularão dezenas de milhares de quilômetros quadrados de floresta devastada.

“Vamos ter que repensar o que vai ser do nosso futuro. A floresta vai diminuir. Como vamos mudar esse enfoque que temos hoje? Vamos continuar destruindo a floresta?”, questiona Augusto. “As próximas gerações vão sofrer com isso.”