Ao lado de Erlon, Isaquias leva a prata e se consagra nas águas da Lagoa

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Dizia o filósofo Heráclito, de Éfeso, que “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos”. Esse pensamento talvez defina a união entre os opostos Isaquias Queiroz e Erlon de Souza.

O “Maluco Beleza” e o menino calado. A figuraça e seu tímido companheiro. Um equilibra o outro. Se dá certo? O resultado da grande final do C2 1000m neste sábado diz tudo. Embalada pelo apoio dos brasileiros, a dupla conquistou a prata em uma prova extremamente disputada, com briga metro a metro.

A de ouro ficou com a fortíssima parceria formada pelo experiente Sebastian Brendel, que levou também no C1 1000m na terça, e o jovem promissor Jan Vandrey. No fim, os fãs gritaram “É campeão!” para os brasileiros, que retribuíram com cumprimentos e muita festa. A Ucrânia, de Ianchuck e Mishchuk, ficou em terceiro.

Na lógica do pensador “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”, mas Isaquias Queiroz entrou três vezes na mesma lagoa para decidir medalha: saiu com a prata no C1 1000m, o bronze no C1 200m e, agora, outra prata no C2 1000m, essa última com o amigo Erlon de Souza. Eternizou de vez seu nome na história olímpica do Brasil.

Na verdade, já tinha feito isso quando ficou em segundo lugar na prova de estreia e virou o primeiro canoísta brasileiro a conquistar medalha na Olimpíada. Depois deste domingo, ele se tornou único esportista do país a conseguir subir ao pódio mais de uma vez em uma edição dos Jogos Olímpicos. E ainda gravou seu nome na história olímpica como um todo: é o primeiro a levar três medalhas olímpicas na canoa.

A parceria vitoriosa da canoagem velocidade saiu do Rio de Contas para o Rio de Janeiro.  Agora, foi do Rio de Janeiro para o mundo. Isaquias, filho de Ubaitaba, e Erlon, rebento de Ubatã, deram suas primeiras remadas nesse rio prateado, berço da canoagem do Brasil, que corta mais 11 cidades no estado da Bahia e produz canoístas a cada novo nascimento, já que a embarcação é o principal meio de transporte do local.

Eles cresceram, deram duro, superaram, cada um, suas próprias dificuldades. Tudo sob a batuta do gênio Jesús Morlán, que já tinha levado o espanhol David Cal a cinco medalhas olímpicas e, em 2013, resolveu acreditar no projeto da canoagem brasileira.

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O estrangeiro teve visão: tirou os meninos da represa de Guarapiranga, foi para a raia olímpica da USP, em São Paulo, mas viu que não daria certo dividir a lagoa com amadores. Os atletas precisavam de foco total. Após muita pesquisa, o comandante fez uma mudança drástica: levou a seleção brasileira para a pacata Lagoa Santa, em Minas Gerais. Adotou um sistema de treinamento de oito semanas de trabalho e apenas uma de folga. Deixou sua família na Colômbia e passou a morar e dividir tudo, até tarefas domésticas, com Isaquias, Erlon e os outros canoístas que fazem parte do time, Ronílson e Nivalter.

Ao longo do tempo, a equipe teve inúmeras conquistas. Dentre elas, vale destacar os dois ouros de Isaquias na prova do C1 500m nos mundiais de Duisburg 2013 (levou também bronze no C1 1000m) e Moscou 2014 (ainda ficou em terceiro no C2 200m, com Erlon), e o ouro mais recente, em Milão 2015, no C2 1000m, com o parceiro habitual (ganhou também o bronze no C1 200m). Agora, adiciona à sua coleção a prata de Erlon e Isaquias, e a outra prata e o bronze do baiano de 22 anos. Que as águas passem, mudem, se renovem… Mas a canoagem nunca vai se esquecer do que viu nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas na Olimpíada do Rio nesta semana.

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