Após descobrir ômicron, África do Sul reduz restrições com queda de casos de Covid

Agora ninguém mais é proibido de estar nas ruas depois da meia-noite, como vinha sendo exigido em toda África do Sul

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Foto: Mike Hutchings/Reuters

Parece que ficou em 2021 a grande preocupação da África do Sul com a quarta onda de infecções por Covid-19. Pouco mais de um mês após ter anunciado ao mundo a existência da variante ômicron, o número de casos no país já atingiu seu auge sem ter causado muitas mortes, segundo autoridades do país.

Com esta justificativa, o governo suspendeu o toque de recolher, em vigor desde o ano passado. Agora ninguém mais é proibido de estar nas ruas depois da meia-noite, como vinha sendo exigido em todo o país.

Com isso, 2022 começou com festas cheias em vários locais da Cidade do Cabo, que fica em Western Cape, a única das nove províncias que não tem registrado diminuição de hospitalizações de pacientes com Covid-19 e também uma das duas únicas províncias sul-africanas que não têm visto queda no número de novos casos. A outra é Eastern Cape.

Depois de ter sido identificada, em novembro, a variante ômicron rapidamente se tornou dominante no país, fazendo o registro de novos infectados disparar, chegando a uma média de mais de 23 mil casos por dia no meio de dezembro.

A velocidade com que essa quarta onda — impulsionada pela variante ômicron — subiu, atingiu o ápice e depois diminuiu tem impressionado quem acompanha a pandemia de perto.

“Pico em quatro semanas e declínio abrupto em outras duas. Foi mais uma inundação do que uma onda”, minimizou Fareed Abdullah, do Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul.

Para a Organização Cívica Nacional da África do Sul (Sanco, na sigla em inglês), o pico da quarta onda pode ter sido superado, mas a pandemia ainda não.

“A Covid-19 ainda está entre nós”, disse o porta-voz da organização, Thamsanqa Kenke, citando dezenas de mortos por conta da doença recentemente. “Estamos falando de chefes de família, falando de criadores de empregos neste país”.

País tem capacidade hospitalar ociosa

O cientista brasileiro Tulio de Oliveira, que mora na África do Sul e lidera a equipe que identificou as variantes ômicron, em novembro, e beta, no fim de 2020, disse que a atitude do país é exemplar para o mundo, mas ele acredita que o governo pode estar agindo corretamente.

“A detecção precoce da ômicron — ciência de alto nível —, baixo número de infecções e hospitalizações quando a variante surgiu e a confiança entre o governo e os cientistas estão permitindo que a África do Sul seja líder mundial em ciência e resposta à Covid”, publicou o brasileiro em sua conta no Twitter.

Ainda segundo o cientista, a nação que confirmou até agora o maior número de casos no continente africano ainda tem capacidade hospitalar ociosa e cientistas clínicos e epidemiológicos no país podem analisar em tempo real os dados para determinar o efeito da gravidade dos casos.

Assim que o mundo soube da descoberta da variante, países reagiram proibindo a entrada de viajantes vindos da África do Sul. O brasileiro chamou de estúpida esta reação internacional, destacando que o país está liderando o mundo em ciência e proteção de sua economia.

“A proibição severa, ineficiente e estúpida de viagens prejudicou muito nossa economia. O governo e as empresas precisam que a economia continue funcionando para cobrir as perdas da indústria do turismo, que contribui com 82 bilhões de rands anualmente [mais de R$ 28 bilhões]”, escreveu o cientista.

Os cancelamentos de voos atrapalharam os planos do representante comercial Douglas Fernandes, gaúcho que se mudou para a África do Sul com a esposa em abril. Os dois pretendiam viajar para a Europa neste fim de ano, mas tiveram que mudar os planos.

Foram para a Cidade do Cabo, como outros que também não conseguiram sair do país. Mas isso tudo trouxe prejuízo para o casal. “Você perde o direito de ir e vir, basicamente porque apesar de ter algumas alternativas para sair da África do Sul os preços estavam fora da realidade”.

Testes são suficientes?

Esta queda de novos casos deve ser analisada com cautela, porque isso também pode significar menos testes sendo feitos. Os 4.379 resultados positivos que estão no relatório deste domingo representaram 23,1% de 18.970 testes feitos em 24 horas.

O percentual não é muito diferente do divulgado um mês antes (22,4%), só que no dia 2 de dezembro foram feitos 51.402 testes, mais que o dobro do que consta no último relatório (e eles resultaram em 11.535 testes positivos).

Isso pode se justificar pelo período de festas, pela indisponibilidade de kits na rede pública ou o alto custo do exame, quando feito em clínicas particulares. Levando em conta que muitos infectados têm recentemente apresentado sintomas leves, como febre, dor de garganta, tosse seca e nariz entupido, nem todo mundo tem feito teste ao se sentir assim.

E, em um lugar onde, como dizem os locais, é possível estar exposto às quatro estações em um só dia, onde o vento é tão forte que árvores crescem tortas, apresentar estes sintomas é tratado como algo comum.

Foi assim que se sentiu quase um mês atrás Dalva Estela de Azevedo. A brasileira mora na África do Sul com o marido e a filha e, na época, teve contato com alguém que testou positivo para Covid. Só que a família não conseguiu fazer testes para saber se também estava infectada.

Ela disse à reportagem que não havia energia elétrica em hospitais públicos que procuraram para fazer o exame e em clínicas particulares atendentes chegaram a pedir receita médica para fazer os testes, o que dificultaria e encareceria muito a busca pelo diagnóstico.

Medidas de restrição

Na semana passada, autoridades sul-africanas suspenderam a necessidade de quarentena para quem teve contato com infectados se não apresentarem sintomas. Atualmente, há 184.191 pessoas isoladas com Covid-19, em tratamento, sendo que 9.353 delas estão hospitalizadas.

O uso de máscaras em público ainda é obrigatório. Aglomerações não podem reunir mais do que mil pessoas em locais fechados e duas mil em áreas abertas. Em áreas pequenas, o público não pode ultrapassar 50% da capacidade total.

O presidente Cyril Ramaphosa pediu a todos os sul-africanos com mais de 12 anos que se vacinem. Ele lembrou que a vacinação continua sendo a principal forma de se combater o coronavírus.