Após incidentes na Paulista, Ciro Gomes propõe ‘trégua de Natal’ entre oposição a Bolsonaro

Pré-candidato à Presidência pelo PDT defende necessidade de consenso, mas reforça que isso não significa fim das diferenças com o PT

Ciro Gomes participou de ato contra Bolsonaro no Rio, antes de viajar a SP para as manifestações na avenida Paulista. Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Um dia após sofrer ataques nas manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro em São Paulo, o pré-candidato do PDT à Presidência da República Ciro Gomes propôs uma “trégua de Natal” entre a oposição ao governo para produzir um consenso pelo impeachment de Bolsonaro.

“Propomos uma amplíssima trégua de Natal. Não tem nas guerras por aí afora, onde se faz até dois dias de trégua? Quando o assunto for Bolsonaro e impeachment, a gente deve esquecer tudo e convergir para esse raríssimo consenso, que já não é fácil”, afirmou.

Em coletiva de imprensa virtual neste domingo, Ciro reforçou a necessidade de unidade contra um “bote” de Bolsonaro nas eleições presidenciais do ano que vem.

“Bolsonaro é uma espécie de cobra, uma víbora venenosa que vai esperar a hora de dar o bote. Ele já anunciou que não haverá eleições se as regras não estiverem ao gosto dele. E quando ele encolhe, é por razões de dissuasões que nós produzimos, Judiciário ou quem está na rua lutando”, afirmou.

Ciro disse que isso não significa superar diferenças, como as que tem com o MBL ou com o PT – sobre estas, reforçou, são “cada vez mais profundas e insuperáveis”. Mas destacou que são tréguas necessárias para tirar o presidente da Câmara Arthur Lira “da inércia criminosa” e mobilizar os deputados a votarem o impeachment do presidente.

“É como nas guerras. Só na noite de Natal, vamos parar de atirar. É uma comparação que faço de momento aqui. Nossas diferenças vão continuar. Não tenhamos ilusão, vou continuar estabelecendo com muita clareza as diferenças com Bolsonaro e o lulapetismo, em todos os campos. Será a marca do nosso dia a dia. Mas concordamos que existe um inimigo mortal, genocida, que compromete a democracia brasileira e pode chegar ao limite de não ter eleições em 2022. Temos obrigação de nesse assunto achar um modo de conviver”, afirmou.

Questionado sobre se considera que o PT poderia aderir a essa proposta de trégua, porém, Ciro disse que isso é “pouco importante”:

“Eu não espero (essa adesão) porque já vi acontecerem coisas com (Leonel) Brizola, com Mario Covas, comigo mesmo. Isso é irrelevante”, afirmou.

Pouco depois, porém, reforçou que não excluiria o PT e “velhos companheiros de jornada”, e que seu apelo é “a um momento de respiro”.  Mas fez questão, também, de se descolar da polarização entre Lula e Bolsonaro, e disse que não tem “nada a ver” com “essa terceira via que se vê nos jornais”.

Nos atos de ontem, na avenida Paulista, Ciro foi vaiado por petistas enquanto discursava. Houve ainda um início de briga entre petistas e apoiadores do pedetista, após o carro de Ciro ser atacado quando ele deixava a manifestação. Na coletiva deste domingo, porém, Ciro minimizou os ataques, aos quais se referiu como “bobagenzinhas” e pediu “serenidade” à militância pedetista.

“Sei que a militância (do PDT) está aborrecida, mas vamos manter o foco no que interessa e não dar relevância ao que não tem relevância”, minimizou. “O que estou propondo para toda militância nossa é não dar valor a esses incidentes, que são desagradáveis, mas são irrelevantes, principalmente nessa gravíssima hora que o Brasil está pedindo da gente serenidade, equilíbrio e foco.”

Ciro não comentou explicitamente a ausência do ex-presidente Lula nos protestos de sábado, mas afirmou que muitos políticos que gostariam de se manifestar contra Bolsonaro não saíram às ruas. O pedetista disse que foi aos atos “de peito aberto” e por “dever moral” com a população brasileira, mesmo sabendo que a exposição poderia levar a incidentes como os ocorridos na Paulista. E disse que voltará às ruas em 15 de novembro, data comemorativa da Proclamação da República e de prováveis novos protestos.

“Vamos precisar de todo mundo, para banir do mundo a opressão, trata-se rigorosamente do que está no verso do (compositor mineiro) Beto Guedes. Precisamos planejar as próximas rodadas. Vou sugerir uma organização, são 21 organizações, não é só o PT, são 21 organizações, centrais sindicais”, enumerou.

Segundo Ciro, a necessidade “desesperada” de um consenso é a única forma de proteger a democracia brasileira das ameaças de Bolsonaro e pressionar Lira para dar andamento aos processos de pedidos de impeachment contra o presidente.

“Se nos mobilizarmos, e acho que o gigante acordou, até dezembro, janeiro ou fevereiro poderemos mostrar aos políticos que é uma omissão criminosa estarem acobertando Bolsonaro. E que o impeachment pode ser uma ferramenta eficaz para interromper essa tragédia”, disse.

Ciro afirmou que, para as próximas mobilizações, seria necessário diversificar as bases regionais “para Minas, Porto Alegre”. Sugeriu, ainda, mobilizar a classe artística, que tem uma “carga simbólica forte das vezes que precisamos criar consenso no país”, disse, lembrando ainda das campanhas das Diretas Já.

Ainda sobre os incidentes de sábado, Ciro agradeceu a presidente nacional da legenda, Gleisi Hoffmann, que criticou as agressões ao pedetista. Mas afirmou que ninguém ligou para se desculpar.

“Agradeço, pois esse é um sinal para a turma dela de que esse tipo de prática não é orientação nem é desejável. É um gesto relevante (da presidente do PT), mas ninguém me ligou.”