Arena vai de sonho a grande problema para o Corinthians

Durante a construção da Arena Corinthians, em 2011, uma empresa brasileira se ofereceu para colocar vasos sanitários, torneiras e outros acessórios nos banheiros do estádio. A oferta foi recusada. O projeto era ter material importado da Alemanha. Já os vidros seriam de origem belga.
A história foi contada e recontada nos últimos meses por integrantes da comissão do estádio criada pelo presidente do conselho deliberativo do Corinthians, Antonio Goulart. O objetivo era descobrir como a arena em Itaquera, inaugurada em 2014, havia se tornado um grande problema. A comissão apresentou suas conclusões em reunião de 12 de agosto, da qual a Folha obteve uma cópia da ata.
Neste mês, a Caixa pediu a execução de dívida de R$ 536 milhões da Arena Itaquera S.A. A empresa, que administra o estádio e tem o Corinthians como um dos sócios, atrasou pagamento de parcelas de empréstimo realizado para a construção.
Logo em seguida, o presidente Andrés Sanchez anunciou acordo da dívida com a Odebrecht, responsável pela obra. Por causa de debêntures emitidas para ajudar na empreitada, ela também foi executada pela Caixa e entrou em recuperação judicial.
Em dívida de R$ 1,030 bilhão com a construtora –calculada pela própria comissão do estádio–, o Corinthians se comprometeu a pagar R$ 160 milhões. O acordo precisa ser sancionado pelos demais credores e pela Justiça.
A comissão se queixa da estrutura financeira do estádio feita pela diretoria de marketing do clube, na época comandada por Luis Paulo Rosenberg. A reclamação era que o projeto do arquiteto Aníbal Coutinho parecia o de um shopping center de luxo.
Procurado pela Folha, Coutinho não quis falar sobre o assunto. Rosenberg não atendeu às ligações ou respondeu às mensagens enviadas durante a última semana.
A primeira proposta de construção do estádio foi apresentada pela Odebrecht em agosto de 2010. Seria uma arena multiuso, padrão Fifa, e teria valor fechado de R$ 335 milhões. No ano seguinte, o estádio corintiano foi anunciado como local da abertura da Copa de 2014.
Na inauguração do torneio, o preço final havia saltado para R$ 985 milhões (R$ 1,3 bilhão em valores atualizados), bem acima do custo original, que corrigido para 2019 seria de R$ 599 milhões.
O projeto era de autofinanciamento. A Odebrecht pagaria pela obra com seus recursos e depois recuperaria o dinheiro com receitas geradas pela arena. Seria formada uma SPE (Sociedade de Propósito Específico), figura jurídica comum em incorporações imobiliárias em que uma parte entra com o terreno (o Corinthians) e outra com a obra.
A estrutura financeira para a execução do projeto previsto consistiria no empréstimo repassado pela Caixa no valor de R$ 400 milhões, além dos CIDs (Certificado de Incentivo ao Desenvolvimento), estimados em R$ 420 milhões.
A SPE foi a primeira distorção no projeto, porque a sociedade, com o Corinthians incluído, teria de buscar dinheiro no mercado. Os conselheiros alegam que, se a ideia era autofinanciamento, a Odebrecht deveria ser encarregada de entrar sozinha com os recursos. Captar em bancos jogou por terra o preço fechado de R$ 335 milhões.
Na ata da reunião do conselho há reclamações de que o clube foi omisso em contestar mudanças ou gastos não previstos. Em maio de 2011, foi assinado contrato de administração em que o Corinthians ficava obrigado a pagar R$ 30 milhões pelo início das obras, na época já atrasadas. O fato de não haver multa contra a construtora pela perda do prazo irritou conselheiros.
Outro problema apontado pela comissão foi o planejamento de uso dos CIDs. A lei autorizando a emissão de R$ 420 milhões em títulos municipais foi promulgada em junho de 2011. Os certificados ajudariam a financiar a construção, mas estariam disponíveis apenas em dezembro de 2014. Isso tornou urgente a busca de novas formas de financiamento.
Quase três meses mais tarde, em setembro, a Odebrecht apresentou novo orçamento para o estádio. O aumento para R$ 820 milhões foi justificado pela necessidade de adequar a arena para receber os jogos da Copa e também pelo projeto apresentado por Aníbal Coutinho, diferente do pensado pela construtora.
As fontes de financiamento seriam R$ 400 milhões da Caixa, os CIDs e “outros incentivos governamentais e receitas provenientes da exploração comercial da arena”, diz o texto da ata da reunião.
A comissão repetiu queixa que se tornou comum: os cerca de R$ 450 milhões prometidos pela venda dos naming rights não se concretizaram, criando um rombo nas contas. Para os conselheiros, foi ingenuidade acreditar ser possível negociar os direitos após a inauguração da arena.
Sem o financiamento da Caixa ou o uso dos CIDs, a OPI (Odebrecht Participações e Investimentos), integrante da holding responsável pela construtora, tomou empréstimos. Foram R$ 100 milhões do Santander, R$ 150 milhões do Banco do Brasil e R$ 146 milhões da construtora Norberto Odebrecht. Quando o dinheiro do banco estatal saiu, foi usado para quitar a dívida.
Na avaliação da comissão do estádio, os custos da obra ficaram descontrolados.
Em dezembro de 2011, o Corinthians deixou de ser oficialmente o contratante da obra do seu estádio, com o argumento de que os R$ 400 milhões da Caixa não poderiam ser repassados ao clube, que não possuía garantias suficientes. Foi criada a Arena Fundo de Investimento para administrar a obra, formada por Corinthians, OPI e SPE Arena.
Dois anos mais tarde foi assinado aditivo para postergar a entrega. Ela deveria ocorrer em fevereiro de 2013, mas passou para 30 de abril de 2014.
O Corinthians assumiu gastos que não deveriam ser dele, alega a comissão.
Havia a promessa de que a Petrobras retiraria os dutos que passam pelo terreno do estádio. Isso não aconteceu e a agremiação teve de gastar R$ 14 milhões. Também houve R$ 50 milhões em despesas administrativas e R$ 85 milhões com juros não previstos.
“Eu me arrependo de ter feito esse estádio, pois esperava que as coisas seriam um pouco diferentes entre as pessoas, principalmente entre nós, corintianos. Estou desanimado realmente com a presidência, com o Corinthians”, afirmou o presidente Andrés Sanchez após a apresentação das conclusões da comissão.
Em nota, o Corinthians diz que o encarecimento da obra se deve à inclusão de itens exigidos pela Fifa para que o estádio recebesse a Copa: “Ficou mais acentuado quando o estádio foi escolhido para abrir o evento. Surgiram exigências em função da presença de chefes de Estado, o que obrigou o projeto a ser ampliado com espaços que jamais serão monetizados”.
Afirma ainda que “a demora na obtenção do financiamento da ampliação da obra fez com que o empreendimento fosse financiado durante um período a juros de mercado, com taxas bastante altas se comparada a outras linhas de crédito liberadas para outras arenas”. A agremiação reafirma manter negociação com a Caixa para alterar o fluxo de pagamento do financiamento.