Artistas que trabalham nas escolas de samba de Manaus cobram posicionamento sobre a realização do Carnaval

Os trabalhadores envolvidos com as atividades do Carnaval divulgaram uma carta aberta sobre o assunto

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Foto: João Paulo Castro

O desfile das escolas de samba de Manaus é um evento bastante aguardado pelo público carnavalesco da capital amazonense. Entretanto, a tradicional festa popular não é realizada desde 2021 devido à pandemia da Covid-19, e a mesma situação pode se repetir em 2022, principalmente com o aumento de casos de coronavírus e Influenza.

Caso não aconteça os desfiles das escolas de samba, diversos artistas que fazem parte do processo criativo do Carnaval, como figurinistas, coreógrafos, costureiras, músicos e aderecistas, podem sofrer um grande impacto, tendo em vista que o setor cultural foi um dos mais afetados pela pandemia.

A Comissão dos Artistas Proponentes, envolvidos com o desfile das escolas de samba de Manaus, divulgou nessa terça-feira (11), uma carta aberta — ver no final da matéria — para falar a respeito do desfile das escolas de samba. No documento, foi colocado em pauta os protocolos de segurança para com o público, mas também ressaltado a dificuldade que muitos trabalhadores do setor artísticos estão passando.

“Nós, da comissão de representatividade dos artistas proponentes, queremos deixar claro, sobre nossa preocupação extrema com a segurança sanitária, a garantir a tranquilidade e bem-estar da população em razão da atual situação pela qual estamos passando, com o crescimento de ocorrências da transmissão da Covid-19, porém, acreditamos também que, juntos às autoridades competentes, possamos buscar alternativas à prática salutar a garantir de forma, o emprego e renda dos artistas envolvidos com os desfiles das escolas de samba”, diz a carta.

O documento também pediu que a Prefeitura de Manaus e o Governo do Amazonas tomasse alguma providência com relação ao pedido dos artistas envolvidos nos desfiles das escolas de samba.

“É sabido que iremos para dois anos, sem a realização dos desfiles das Escolas de Samba de Manaus e as dificuldades financeiras dos artistas são imensas, por esta razão, se faz necessária uma atenção a fins de se garantir a sobrevivência destes profissionais e o sustento de suas famílias. Com a intenção de contribuir com as autoridades competentes, solicitamos a recepção desta Comissão, para que possamos expor à sociedade e as autoridades competentes, nossas propostas e projetos alternativos”, complementa.

Problemas e soluções

O coreógrafo Tony Botelho, que trabalha na escola de samba Reino Unido da Liberdade, disse ao Radar Amazônico que foi bastante impactado com a pandemia da Covid-19. Segundo ele, é possível realizar o desfile das agremiações, desde que haja um rigoroso protocolo sanitário contra a doença.

“Trabalho com danças folclóricas e Carnaval, e os artistas desse segmento foram totalmente abandonados. Vejo ser possível sim, a realização do desfile com uma rigorosa fiscalização, obedecendo aos protocolos sanitários para quem for participar. A vacina veio para isso, para podermos voltar a nossa “normalidade”, a não realização do Carnaval será um grande impacto negativo para os artistas que dependem desse recurso, será um desastre total, nossas dívidas só aumentam virando uma bola de neve e não temos de onde tirar”, falou.

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Desfile da Mocidade Independente de Aparecida — Foto: João Paulo Castro

A advogada e integrante da Comissão dos Artistas Proponentes, Nely Miranda, apresentou algumas propostas que podem ser utilizadas como alternativas para ajudar os trabalhadores envolvidos com as atividades carnavalescas.

“Tudo dependerá das conversas e viabilidades sanitárias. Estamos com diversas propostas, entre elas, a realização de um desfile sem público com transmissão ao vivo pela TV, mas é claro, no momento que houver possibilidades sanitárias para tal. Caso não tenha essa possibilidade, que haja o lançamento de editais direcionados aos artistas do segmento, recepcionando assim, propostas de oficinas, workshops, apresentações, fomentando cultura a sociedade, trazendo o devido retorno à população com o fruto do trabalho artístico. Não queremos nada de graça, queremos trabalho”, reitera.

Decreto e suspensão

A Prefeitura de Manaus determinou no dia 07 de janeiro, a suspensão das festas e blocos de rua do Carnaval 2022 após a chegada da variante Ômicron, oriunda da Covid-19. O prefeito David Almeida (Avante) também decidiu suspender qualquer autorização sanitária para suas realizações neste ano.

Além disso, a prefeitura também suspendeu o edital de chamamento público para concessão de apoio financeiro para o desfile das escolas de samba de Manaus do Grupo Especial, “A” e “B”. O valor total dos recursos disponibilizados era de R$ 2.229.541,60 (dois milhões duzentos e vinte e nove mil quinhentos e quarenta e um reais e sessenta centavos). Entretanto, David Almeida ainda não tomou nenhuma decisão a respeito do assunto, tendo em vista que as agremiações seguem um cronograma de trabalho.

No mesmo dia, o Governo do Amazonas decretou que festas com mais de 200 pessoas sejam cancelados devido aos aumentos de casos de Covid-19 no Estado. Com isso, escolas de samba como Mocidade Independente de Aparecida, Reino Unido da Liberdade e A Grande Família cancelaram seus respectivos ensaios.

À reportagem, Nely ressaltou que o processo criativo das escolas de samba leva cerca de nove meses e muitos artistas precisam trabalhar.

“Nós artistas também nos manifestamos pelo extremo cuidado que o momento exige. Porém, o que gostaríamos de esclarecer e sensibilizar a sociedade que, embora interligados, o atual cenário sanitário faz uma distinção bem clara entre: Carnaval, as festas, num sentido amplo, e o desfile das escolas, que geram uma cadeia produtiva que sustentam diretamente, por base, mais de 2 mil famílias. Neste contexto é que gostaríamos de relembrar que o trabalho artístico que envolve os três dias de espetáculo no Sambódromo é resultado de pelo menos nove meses de trabalho”, finaliza.

O Radar Amazônico entrou em contato com a Prefeitura de Manaus e o Governo do Amazonas para falar a respeito de alternativas para ajudar os artistas que trabalham nas escolas de samba da capital amazonense. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

Veja a carta aberta