As milhares de Marianas vítimas de “estupro sem dolo” no Brasil

 

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O caso de Mariana Ferrer indignou o país pela forma machista, ilegal, imoral, covarde, além de muitos outros adjetivos bem piores que tenho vontade de escrever, mas são impublicáveis, do modo como agiram os homens da Justiça com esta garota, que tem 23 anos agora e tinha 21 anos quando teria ocorrido o estupro.

Mas, no Brasil, um país onde houve um estupro há cada oito minutos em 2019, segundo a 14ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são incontáveis as “Marianas” julgadas deste mesmo jeito, “Marianas” pobres”, “Marianas” desconhecidas”. Mariana é apenas mais uma mulher que é acusada de ser culpada de seu próprio estupro. E, diferente do caso de Mariana Ferrer, as outras “Marianas” do meu Brasil sequer vão ter direito de falar da sua revolta e da sua dor, serão obrigadas a ficar caladas por famílias que não querem “escândalos”, serão obrigadas a viver uma vida inteira com o trauma do estupro e a dor do silêncio obrigatório.

O caso de Mariana Ferrer está se tornando notório por várias razões. Logicamente, que muito se deve a notoriedade deste caso, a coragem dessa garota Mariana de enfrentar machões covardes, sejam eles do mundo jurídico ou não. De não ter medo do julgamento de parte de uma sociedade hipócrita, que se diz conservadora e moralista, mas que pratica os piores atos, as maiores imoralidades, as escondidas, longe do julgamento público. Mas também tem o fato de Mariana ser blogueira, ser uma figura conhecida, ter conhecimento digital e os meios para mostra ao mundo, através das imagens do julgamento por videoconferência, a vilania de quem deveria ter atitudes heroicas: um promotor de Justiça, um Juiz de Direito e um advogado (operador do Direito).

Mas há muitas marianas no Brasil, julgadas deste mesmo jeito. Não importa quantas testemunhas digam que elas choraram muito após o estupro, que apelaram por socorro e que caíram em depressão, como disseram testemunhas do sofrimento de Mariana Ferrer. Não importam as provas, o sangue e o sêmen na roupa. Não importa se ela estava lá para um compromisso profissional. Elas são culpadas e ponto final!

E por serem culpadas, um promotor de Justiça como Thiago Carriço de Oliveira, não vai ver dolo no sexo sem consentimento. O cara estuprou sem saber que estava estuprando. Estuprou sem querer estuprar. Afinal, fazer sexo sem consentimento é como dar um encontrão nos outros, né mesmo! Uma coisinha à toa, tu cometes o ato e depois pede desculpas, ta bom!

Pra essa gente falso-moralista a história é essa: uma garota de 21 anos, linda, virgem, inteligente, batalhadora, com um futuro promissor a sua frente, tanto profissional quanto em sua vida amorosa, acordou um dia e sabe-se lá por que quis perder a virgindade, com um cara meio esquisito – pelo menos nas fotos é – de mais de 40 anos, que ela nem conhecia direito e depois nem se lembrar desse momento tão importante na vida de uma mulher.

Nos julgamentos, não só dos tribunais, como de parte da sociedade, elas são tratadas como falsas e dissimuladas, exatamente como o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho tratou Mariana. “Não adianta vir com esse teu choro dissimulado, falso e essa lábia de crocodilo”, disse ele enquanto a garota chorava – nessa hora penso: Ah, se ela fosse minha filha, ele ia ver do que era capaz uma “jacaroa” da Amazônia.

Além das vítimas de estupro, na sua dor, já se sentirem culpadas por, de alguma forma, ter facilitado a proximidade do agressor, as “Marianas” de Norte a Sul do Brasil, ainda são atacadas por advogados de forma semelhante que o tal Claudio Gastão, para quem um dedo na boca numa foto é “posição ginecológica” – o que será que a cabeça doentia desse sujeito consegue ver no lugar do dedo da garota?

Não só advogados, como parte da falso-moralista sociedade do meu querido Brasil também usaria até o nome de Deus como fez Claudio Gastão para atacar uma vítima de estupro. O advogado disse a Mariana que “graças a Deus não tinha uma filha do nível dela” e de novo falou em Deus quando disse que pedia a Deus que seu filho “não achasse uma mulher” como Mariana – se eu fosse seu filho morria era de vergonha de ter um pai como esse!

Da mesma maneira como aconteceu no caso de Mariana, advogados são muito bem pagos no Brasil a fora para apresentar ao juiz provas “incontestáveis – uma roupa mais curta ou o fato de ter ingerido bebida alcoólica – de que as mulheres “pedem para ser estupradas” – muita internauta também fala isso nas redes sociais. E os estupradores são inocentados já que são vítimas frágeis diante da provocação dessas mulheres terríveis! Muitos juízes também acham isso!

Mas, mesmo num momento tão difícil como esse, quando nos deparamos com gente que acha que as mulheres não têm direito de ser livres, de usar o que quiser, nem estar onde bem entender, sem ser obrigada a fazer sexo com alguém, também há uma lição das mais esperançosas: há gente querendo mudar essa situação, inclusive homens! E juntos quem sabe não podemos defender muitas outras Marianas deste País!