As negociatas na Educação do Amazonas e seus sócios ocultos

Tem vezes que a gente não sabe se ser um bom repórter é benção ou maldição. Benção por ter os sentidos aguçados – o olfato por exemplo – e uma intuição de que há algo de “podre” por trás do discurso bonito de certos homens públicos, o que torna mais fácil a tarefa diária de apurar os fatos e transformá-los em texto. Maldição porque é decepcionante e sofrido ver como se faz negociatas em áreas vitais da administração pública como saúde e educação.

E no quesito “negociata” estou começando a achar que a Secretaria de Educação do Amazonas (Seduc) talvez seja “terreno” ainda mais fértil que a Secretaria de Saúde do Amazonas – antes Susam e agora SES. Tenho encontrado tantos indícios de maracutaia, alguns muito difícil de acreditar, até pra mim que tenho três décadas como repórter.

Tem um transporte escolar que custa milhões aos cofres públicos, onde o que menos interessa é a qualidade do serviço prestado aos estudantes do Amazonas. Crianças chegam a ser carregadas em canoas ou em veículos sucateados, sem a menor segurança. E isso quando o serviço é prestado porque muitas vezes apenas é pago. Quer ver um exemplo, foram pagos quase R$ 3 milhões para a empresa Navegação Cidade em pleno ano de pandemia, onde sequer teve aula na região atendida pelo contrato.

E não parou nos três milhões para a família do deputado Roberto Cidade o pagamento de transporte escolar num ano em que teve pouca ou quase nenhuma aula presencial no interior do Estado. Foram pagos mais R$ 23 milhões este ano para outra empresa de transporte escolar, a Dantas Transporte, cujo dono, Francisco Luiz Dantas Silva, assumiu ser corrupto e participar de um esquema de corrupção que existe dentro da Seduc. E sabe o que aconteceu, após a denúncia do esquema? Nadica de nada.

Logo depois, o empresário voltou a trás do que disse e tem recebido de “presente” todos esses pagamentos, num total de mais de R$ 23 milhões, através dos chamados “processos indenizatórios”, que a CPI da Saúde, realizada na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) apontou como o instrumento usado por uma organização criminosa para desviar recursos da saúde pública.

E por falar em não existir aulas presenciais, secretários de educação de municípios do interior do Estado dizem que a existência do chamado Ensino à Distância da Seduc é outra grande farsa. Eles enviaram inclusive uma relação de “coordenadores da Seduc”, com os nomes dos respectivos municípios e os números de WhatsApp por onde são transmitidos os conteúdos das aulas para que as crianças estudem. De onde se conclui que as crianças precisam ter celular e internet para ter acesso ao conteúdo das aulas. E cadê o sinal do ensino a distância da Central de Mídias da Seduc? “Aqui num chega não”, diz um desses secretários de Educação, e arremata: “E nem sei aonde está chegando”.

E se o repórter decidir seguir seu faro e seu instinto vai se deparar não com uma, mas com quatro empresas operando no Centro de Mídias da Seduc, recebendo milhões cada uma, em negócios sem licitação e com várias renovações de contrato feitas de forma irregular.

Vai constatar que em determinados negócios na Educação do nosso Estado, os empresários do ramo de comunicação, os mesmos que de vez em quando brigam publicamente, nos bastidores eles estão unidos, como uns tais de “sócios ocultos” na empresa uns dos outros, algo que nos faz lembrar o que aconteceu no caso da compra superfaturada de “ventiladores pulmonares”, onde o marido da secretária de Comunicação era sócio oculto de uma das empresas que participou da “cruzeta” na compra dos ventiladores .

E ai é que se sente aquele enjoo na boca do estômago, ao verificar que para certos empresários e políticos – tem uns que são as duas coisas ao mesmo tempo – a saúde e a educação são apenas fonte pra ganhar dinheiro fácil e nada mais.