As quase inacreditáveis histórias da pandemia

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Nessa vida de repórter, histórias que beiram o impossível não são incomuns. Não há repórter com anos de profissão que não diga que, em algum momento, não se deparou com alguma história que parece saída de um roteiro de filme, seja ele de romance, de suspense, de drama, de humor ou de terror.

Mas, em nenhum momento, em mais de trinta anos como repórter, ouvi narrativas de vida que, só não são inacreditáveis, porque foram contadas por quem viveu esses dramas em suas próprias famílias, pessoas que trazem na voz e no rosto a tristeza de quem vai ter que conviver com isso pra sempre.

Por uma questão de não expor as pessoas que me confidenciaram essas histórias e suas respectivas famílias, não vou citar nomes. As duas histórias mais bizarras que ouvi têm a ver com teorias negacionistas, descrenças em fatos científicos, radicalismo religioso e, acima de tudo, com idolatria ao presidente Messias Bolsonaro e uma crença messiânica em tudo que ele dizia sobre a pandemia do novo coronavírus.

Os dois casos dizem respeito aos sogros de duas pessoas amigas, uma delas inclusive trabalha em minha casa. Tanto num caso como no outro, os sogros dessas pessoas tinham verdadeira idolatria pelo presidente Bolsonaro e crença inabalável em tudo que ele diz, como por exemplo classificar a Covid-19 de “gripezinha”, defender aglomerações, falar contra o uso da máscara, tratar a pandemia como se fosse uma grande farsa pra prejudicar o Brasil e o seu governo, além de acreditar piamente que as vacinas fazem parte de uma conspiração para dominação demoníaca do mundo pelos comunistas.

Apesar das histórias até essa parte já beirarem a insanidade, a situação ainda vai ficar pior. Em um dos casos, o sogro da minha diarista escondeu que estava com sintomas de Covid-19, segundo ela, visivelmente pra não dar o braço a torcer de que ele e seu presidente estavam errados sobre tudo que diziam. Ele chegou ao ponto de se negar a buscar tratamento médico e quando a família buscou ajuda já era tarde demais. Ele morreu de Covid no início do ano.

Já o sogro do meu amigo, acreditava tão cegamente no presidente que se entupia de remédios sem eficácia, como Hidroxicloroquina e Ivermectina, segundo ele, para se prevenir do coronavírus e também pra não ficar em estado grave caso contraísse o vírus. O presidente falava e ele obedecia.

Para seguir o exemplo do presidente, o sogro do meu amigo se negou a tomar vacina, mesmo o imunizante já estando disponível para pessoas de sua faixa etária. Também era contra o uso de máscara e não evitava aglomeração, fez até uma festa de aniversário. Na festa, ele e várias pessoas da família pegaram Covid-19 de um dos parentes. Quatro pessoas da família morreram, inclusive o dito sogro do meu amigo.

E aí mal dá pra acreditar que alguém perdeu a vida numa situação tão estúpida e sem sentido, apenas por ter decidido apoiar um homem insano.