Ataque a tiros em escola no Texas mata ao menos 14 crianças e um professor

Ação ocorreu em cidade perto da fronteira com México, onde há grande presença de latinos

Crianças são retiradas do prédio da escola Robb, em Uvalde, após ataque a tiros – Marco Bello/Reuters

Um homem de 18 anos parou seu carro, desceu armado, entrou em uma escola de ensino fundamental e matou a tiros ao menos 14 crianças e um professor. O ataque ocorreu em Uvalde, cidade no sul do Texas onde três de cada quatro moradores são de origem latina. É o pior massacre em uma instituição de ensino infantil nos EUA em quase dez anos.

O atirador foi identificado como Salvador Ramos, 18. Por volta das 11h30 (13h30 em Brasília), ele entrou na escola com uma pistola e matou os alunos e o professor —há a suspeita de que ele portasse também um rifle. Em seguida, foi morto pela polícia, segundo o governador do Texas, o republicano Greg Abbott.

Ainda há ao menos dois feridos, sendo uma mulher de 66 anos e uma menina de 10, em estado crítico, de acordo com informações de um hospital próximo à instituição.

Não são conhecidas ainda as possíveis motivações para o ataque. A polícia disse acreditar, por ora, que Ramos agiu sozinho, e o governador complementou, em entrevista coletiva, que ele era morador de Uvalde. O condado tem 24 mil habitantes e fica a cerca de 100 quilômetros da fronteira com o México.

Tampouco foram fornecidas informações sobre a identidade das vítimas. Segundo a rede ABC News, a prefeitura tentava contato com as famílias antes de passar os dados à imprensa.

A escola atacada, chamada Robb, tem pouco menos de 600 alunos matriculados. Os pais dos alunos foram orientados a não se aproximar do local para tentar buscar seus filhos, mas para se reunirem em um centro comunitário para obter informações.

As instituições de ensino dos EUA vivem os últimos dias de aula antes das férias de verão. O ano letivo terminaria na Robb nesta quinta-feira (26), com uma festa de formatura programada para a sexta (27), segundo o site da instituição.

O presidente Joe Biden estava em um voo no momento do ataque, voltando da Ásia. Ele deve falar sobre o assunto ao chegar à Casa Branca, no começo da noite. “Suas orações estão com as famílias impactadas por esse acontecimento horrível”, disse a porta-voz do democrata, Karine Jean-Pierre.

O ataque ocorre dez dias depois de outra ação similar. Em 14 de maio, um homem de 18 anos matou dez pessoas negras na cidade de Buffalo, no estado de Nova York. O atirador, Payton Gendron, abriu fogo contra clientes de um supermercado, numa ação transmitida ao vivo pela internet —ambiente no qual também publicou um manifesto para justificar o ataque, baseado em teorias racistas, como a de que os negros estariam tomando o lugar dos brancos na sociedade

O caso desta terça foi o maior ataque à uma escola primária desde o massacre na escola Sandy Hook, ocorrido em dezembro de 2012 em Connecticut. Naquela ocasião, um homem de 20 anos matou 26 pessoas, sendo que 12 eram crianças com idade entre seis e sete anos.

Novos pedidos por restrições no acesso a armas nos EUA foram feitos nesta terça, após a notícia do massacre no Texas. “Outro ataque a tiros. E o Partido Republicano não fará nada sobre isso. Que inferno somos nós se não conseguimos manter nossas crianças seguras. Isso pode ser prevenido. Nossa inação é uma escolha”, publicou Gavin Newsom, governador democrata da Califórnia, em uma rede social.

Ken Paxton, republicano que é procurador-geral do Texas, sugeriu que uma saída para evitar ataques assim seria armar os professores. “Agentes geralmente não conseguem chegar a tempo para conter um ataque. Temos que fazer mais coisas nas escolas, ter pessoas no local treinadas para reagir”, disse, em entrevista ao canal Newsmax.

O estado foi cenário de outro ataque em 2019, quando um atirador matou 23 pessoas em um supermercado em El Paso, cidade que faz fronteira com o México. O autor do crime, que tinha 21 anos na época, havia publicado um manifesto contra os imigrantes latinos.

O porte de armas é garantido pela Constituição, mas muitos especialistas, ativistas e políticos defendem maior controle de acesso, como medidas para impedir que pessoas com problemas psicológicos ou histórico de violência tenham acesso a armamentos de alto calibre. No entanto, políticos ligados ao Partido Republicano costumam barrar medidas nesse sentido, pois veem o direito a se armar como um símbolo de liberdade a ser preservado.

Enquanto isso, indicadores têm mostrado que o número de ataques a tiros vêm aumentando. Dados do jornal Education Week apontam que 2021 foi o ano com mais tiroteios em colégios americanos desde 2018, quando o veículo começou a monitorar o assunto. Foram 28 episódios com ao menos uma pessoa morta ou ferida contra dez em 2020, quando as escolas estavam fechadas devido à Covid, e 24 em 2019 e 2018.

O caso recente de maior repercussão se deu em dezembro, em uma escola de Oxford, cidade próxima a Detroit, em Michigan. ​Quatro estudantes, com idades entre 14 e 17 anos, morreram e outros seis ficaram feridos, além de um professor. O autor do ataque, um jovem de 15 anos, foi acusado de homicídio e ato terrorista e poderá passar o resto da vida na prisão, pois é processado como se fosse maior de idade.

Nesta segunda (23), relatório divulgado pelo FBI, a polícia federal americana, mostrou que o número de incidentes provocados por atiradores dobrou nos EUA nos últimos três anos. O documento registra que, em 2018, foram contabilizadas 30 ações perpetradas por um ou mais indivíduos com a intenção de matar em áreas populosas. Em 2021, esse número chegou a 61.

A velocidade de crescimento dos episódios também subiu. Em 2019, a cifra se manteve estável em relação ao ano anterior, em 30 casos —em 2017, foram 31—, mas subiu para 40 em 2020, aumento de 33%. Na sequência, houve um salto de 52,5% nos registros em 2021, de acordo com o relatório do FBI.