Bebês Yanomami são enterrados sem autorização de famílias e mães ficam desesperadas em RR

Foto: Reprodução/ Hutukara Associação Yanomami

Dois bebês indígenas foram enterrados em Boa Vista sem a autorização das famílias. As mães estão desesperadas a procura dos corpos e o Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-Y) tomou conhecimento dos casos neste sábado (27).

De acordo com o presidente do conselho, Júnior Hekuari Yanomami, os bebês morreram vítimas de Covid-19. Eles foram retirados da Terra Yanomami para fazer outros tratamentos, mas foram infectados pelo coronavírus nas unidades de saúde.

O sofrimento das mães já dura um mês. Elas pedem ajuda do governo federal para recuperar os corpos e cumprir um ritual indígena. O desejo é levar as meninas para serem cremadas na floresta e depois cuidar das cinzas durante um ano, até que chegue a hora de fazer o ritual tradicional.

O MPF afirma que as investigações iniciais apontam que três bebês indígenas foram enterrados no Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista. O órgão disse ainda que acompanha os óbitos e vai garantir a identificação dos corpos e retorno à terra indígena quando for “sanitariamente seguro”.

A menina era recém nascida e foi internada no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazareth – única maternidade de Roraima – em 25 de maio porque a mãe teve complicações no parto. A unidade é administrada pelo governo estadual.

Procurado, o governo estadual não se manifestou sobre o caso até a publicação desta matéria.

Já o menino foi levado para o Hospital da Criança Santo Antônio com suspeita de pneumonia grave. A mãe afirma que ele foi infectado pelo coronavírus no local, que é administrado pela prefeitura de Boa Vista.

Mãe e filho são venezuelanos e pertencem a comunidade Awaris. Eles foram removidos para o Hospital da Criança na tarde de 23 de maio. O menino apresentava bastante cansaço, mas não tinha outros sintomas da Covid-19.

A prefeitura de Boa Vista identificou o menino e contou que ele tinha dois meses de idade. Em levantamento próprio, o município descobriu que ele foi sepultado pela funerária Boa Vista na comunidade Xexena. Informou ainda que oito crianças indígenas já testaram positivo para Covid-19.

O município encontrou ainda dois bebês da etnia Macuxi, de três meses cada, que morreram em 24 de maio e 5 de junho. Ambos foram sepultados no Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista, pela funerária Shallon com acompanhamento da mãe.

“As crianças tiveram todo o atendimento e apoio necessários pelas equipes de saúde e que, por tratar-se de indígenas, há um protocolo obrigatório do Hospital da Criança Santo Antônio com o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) para sepultamentos e velórios”, explicou a prefeitura em nota.

Procurado, o Ministério da Saúde – responsável pelo DSEI – ainda não se manifestou sobre os corpos dos bebês Yanomami.

“Todos os procedimentos do Hospital da Criança até a entrega dos corpos à funerária contratada pelo DSEI estão registrados no livro de ocorrência do Serviço Social do Hospital, com assinatura do responsável pelo translado dos corpos”, diz outro trecho da nota da prefeitura.

A Terra Yanomami, é o maior território indígena do país, é dividido entre Roraima e o Amazonas. Segundo o Instituto Socioambiental, há 26.780 indígenas vivendo na região.

O local é alvo da invasão de garimpeiros, a estimativa que haja 20 mil infiltrados. Autoridades temem que os invasores levem o coronavírus para a região e causem genocídio dos Yanomami.

Os próprios indígenas temem um ciclo de violência após dois jovens indígenas serem executados por garimpeiros invasores da região.