Biden chama republicanos de ‘irresponsáveis’ e diz que EUA podem romper teto da dívida

President quer que medida para elevar o limite de endividamento seja apoiada pelos dois partidos, mas oposição não quer participar de iniciativa; segundo a Moody's, um inédito calote poderia eliminar 6 milhões de postos de trabalho

Biden chama republicanos de'irresponsáveis' e diz que EUA podem romper teto da dívida

Presidente dos EUA, Joe Biden, fala sobre as negociações em torno da elevação do teto do endividamento do governo americano, na Casa Branca. Foto: JONATHAN ERNST / REUTERS

Em meio a uma série de desafios cruciais no Congresso, o presidente Joe Biden voltou a pressionar a oposição republicana para que una forças com os democratas para aprovar a elevação do teto da dívida do governo federal. Caso contrário, os Estados Unidos correm o risco de um inédito e catastrófico calote.

“O que eles estão fazendo hoje é muito inconsequente e perigoso. Não são apenas os republicanos se recusando a fazer o seu trabalho, eles estão ameaçando abusar do poder, do poder deles, para evitar que façamos nosso trabalho ao salvar a economia de um evento catastrófico “, disse Biden a jornalistas, na Casa Branca.

No mês passado, a Câmara, controlada pelos democratas aprovou um projeto que suspendia a aplicação do teto até o final de 2022 — o teto não se aplica ao total da dívida dos EUA, mas sim limita o dinheiro que o governo pode tomar emprestado para honrar seus compromissos, como o pagamento de juros da dívida e benefícios sociais. Em 2019, o limite foi suspenso por dois anos, e o prazo venceu no dia 31 de julho.

Desde então, o Departamento do Tesouro vem adotando medidas excepcionais para garantir as linhas de financiamento, mas essas ações possuem prazo de validade. Na semana passada, a secretária do Tesouro, Janet Yellen, voltou a pedir ação urgente do Congresso, e apontou que não há garantias de que o governo dos EUA conseguirá cumprir seus compromissos depois do dia 18 de outubro.

“Sabemos que impasses anteriores sobre limite da dívida que esperaram até o último minuto para serem resolvidos causam sérios danos à confiança dos negócios e consumidores, elevam os custos para os contribuintes e impactam a nota de crédito dos EUA por muitos anos”, escreveu Yellen.

Como lembrou a secretária, discussões longas e tensas sobre a elevação do teto do endividamento não são novas. Em 2011, durante o governo de Barack Obama, o embate foi tão intenso e prolongado que a agência de classificação de risco Standard & Poor’s chegou a rebaixar a nota de parte da dívida do Tesouro americano.

Uma das explicações para isso é o impacto eleitoral da medida — aos olhos de muitos eleitores, não se trata de uma ação necessária para manter o funcionamento de atividades básicas do governo, mas sim apenas uma medida para elevar o gasto público, algo que pode tirar alguns votos em disputas mais acertadas.

Por isso, os republicanos no Senado, onde o governo tem maioria simples, vêm se recusando a fazer parte de um projeto bipartidário para elevar o endividamento, deixando o ônus apenas com os democratas.

Duelos internos e externos

Nas últimas semanas, o líder da minoria, Mitch McConnell, bloqueou duas iniciativas nesse sentido, e disse que os governistas deveriam aprovar o projeto sozinhos, através de uma ferramenta conhecida como “reconciliação orçamentária”, que demanda apenas maioria simples, e não os 60 votos necessários para quebrar uma eventual obstrução legislativa.

“Os democratas no Senado não precisam da cooperação republicana” para passar a medida, disse McConnell, em carta aberta a Biden, uma ideia rejeitada pelo presidente.

“Elevar o limite de endividamento significa pagar o que já devemos, não é nada novo”, declarou Biden. “Creio, francamente, que é algo hipócrita, perigoso e vergonhoso. A obstrução e a irresponsabilidade não tem limites.”

O presidente ainda culpou o que chamou de “políticas fiscais inconsequentes” do governo de Donald Trump pela necessidade da elevação do teto da dívida, e apontou que esse limite foi ampliado três vezes no mandato anterior, sempre com apoio dos democratas.Ao ser questionado se poderia garantir que os EUA não romperão o teto de endividamento, Biden foi direto.

“Não, não posso. Isso é com Mitch McConnell.”

No mês passado, a agência de classificação de risco Moody’s afirmou que um eventual calote, provocado pela não ampliação do teto do endividamento, poderia provocar uma queda de 4% na atividade econômica, perda de seis milhões de postos de trabalho, a elevação do desemprego para 9% e disparada dos juros de empréstimos e financiamentos.

Além dos obstáculos em torno da elevação do teto do endividamento, Biden enfrenta uma batalha interna no Partido Democrata sobre dois projetos centrais para seu governo: um pacote de infraestrutura, de US$ 1,2 trilhão, e um pacote com medidas para ampliar a rede de proteção social e para fortalecer ações para o clima, com valor inicial de US$ 3,5 trilhões.

A ala progressista vincula a aprovação do pacote de infraestrutura, que já passou pelo Senado ao pacote social e climático, mas democratas conservadores questionam o valor de US$ 3,5 trilhões, e defendem cortes profundos na proposta. Com isso, a votação do primeiro pacote, prevista para a semana passada, foi adiada, enquanto lideranças da sigla tentam um entendimento.

“Não importa se isso acontecerá em seis minutos, seis dias ou seis semanas, nós vamos aprovar”, declarou Joe Biden, na sexta-feira