Bolsonaro demonstra desprezo à vida humana, diz Rui Costa, governador da Bahia

Foto: Alberto Coutinho/Divulgação

Completando sete anos à frente do governo da Bahia, o governador Rui Costa (PT) diz que o enfrentamento às chuvas que assolam o estado e já causaram ao menos 24 mortes é o maior desafio de sua gestão. As enchentes destruíram estradas, inutilizaram estoques de medicamentos e vacinas e deixaram mais de 90 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas.

Quatro ministros do governo federal foram enviados à região, mas Jair Bolsonaro (PL), de férias em Santa Catarina, não esteve por lá. Questionado pelo jornal Folha de S.Paulo se aguardava a visita do presidente, Costa respondeu que não tinha essa expectativa.
“O presidente durante toda a sua gestão demonstrava desprezo em relação à vida humana (…) Ele não demonstra nenhum sentimento em relação à dor do próximo”, afirmou o governador.

Em permanente trânsito na última semana para avaliar os estragos das chuvas, Costa atendeu chamada da reportagem na tarde desta quarta-feira (29), quando estava prestes a embarcar em um helicóptero de volta a Salvador. Ele estima que os recursos necessários para recuperar o estado cheguem a R$ 1,5 bilhão e espera que o governo federal possa ajudar com valores significativos.

PERGUNTA – Havia algo que o governo pudesse ter feito para mitigar as consequências dos temporais? Como o sr. avalia a gestão estadual nesse desastre?

RUI COSTA – Nós temos uma estrutura e respondemos… Lógico que com o apoio de outros estados. Nenhum estado sozinho tem a capacidade de responder a uma demanda dessa. Aliás, essa é uma das coisas que falta ser estruturada no Brasil. Outros países do mundo têm uma estrutura regional para o enfrentamento de grandes desastres, nós não. Inclusive começamos a conversar no Consórcio do Nordeste para ter uma aeronave, por exemplo, mais sofisticada de combate a incêndios, de resgate de pessoas.

O governo federal não tem nenhuma estrutura de ajuda aos estados para desastres. Os helicópteros do Exército, da Marinha, são completamente inadequados para esse tipo de coisa. São helicópteros para a guerra, não para sobrevoar áreas urbanas. Um helicóptero daquele tamanho, quando baixa a uma altura mais reduzida, arranca as telhas, é um desastre.

O que o sr. tem achado da resposta do presidente a essa tragédia? Ele tem sido muito criticado por estar de férias em Santa Catarina e não ter visitado o estado. O sr. esperava a presença dele?

RC – O presidente durante toda a sua gestão demonstrava desprezo em relação à vida humana. Se você me perguntar: “O senhor esperava ele aí?”, vou dizer que não. Durante três anos, em nenhum momento, em nenhum outro desastre, na pandemia, ou em qualquer situação que significasse prestar solidariedade à vida humana ele fez qualquer gesto. É um presidente que não demonstra nenhum sentimento em relação à dor do próximo.

O que o governo federal poderia ter feito, mas não fez?

RC – O mínimo que qualquer presidente pode fazer é dirigir uma palavra de conforto ao seu povo num momento de sofrimento. Tem uma frase que diz que quando você não pode fazer nada, pelo menos transmita uma palavra de conforto. Nem isso ele se preocupa em fazer. Só tenho que lamentar. Tenho evitado falar disso porque num momento de dor as pessoas não querem ver debate político.

Alguns ministros estiveram no estado. Como foi essa conversa?

RC – Eu fiz um apelo para que eles tenham um olhar diferenciado para esse momento que a Bahia vive. Espero que eles tenham esse olhar e tratem, se não o estado, pelo menos o povo baiano de uma forma respeitosa e digna.

O sr. já disse que R$ 80 milhões não são suficientes para recuperar as estradas federais. Os ministros deram alguma sinalização de mais recursos?

RC – Sinalização e predisposição houve, de ajudar na reconstrução das casas, de ajudar os municípios na reconstrução da infraestrutura. Estamos na expectativa de que esses anúncios, ou de que esse sinal de boa vontade, venham a acontecer.

Se as estradas não forem recuperadas rapidamente, qual deve ser o impacto na economia estadual?

RC – É um custo indireto. O caminhoneiro vai procurando outros caminhos para poder chegar. Em geral caminhos mais longos, que gastam mais combustível, aumentando o custo do frete e reduzindo a margem para o produtor.

Esse foi o maior desafio do seu governo?

RC – Sem dúvida. Mas graças a Deus o principal a gente conseguiu, que foi evitar a tragédia de vidas humanas perdidas. O prejuízo material, mesmo que leve mais tempo, você recupera. A vida humana não.

O sr. esteve em São Paulo no jantar com o ex-presidente Lula e com o ex-governador Geraldo Alckmin. Como o sr. avalia essa possível aliança?

RC – O presidente eleito terá um desafio gigantesco. São seis anos de instabilidade política, jurídica e institucional que corroeram a credibilidade do Brasil. É preciso passar a ideia de que o país vai estar unido, que vai ter uma grande concertação a favor da reconstrução do Brasil, e não há como passar essa ideia se a preocupação for apenas ganhar a eleição.

Eu acho que, desde já, nós temos que nos preocupar em ganhar a eleição, fazer esse país crescer e voltar a ser inclusivo. Isso é uma tarefa muito grande para ser tocada por um só partido. É preciso promover a união dos brasileiros que querem reconstruir nosso país. Por isso eu acho que o [ex] presidente [Lula] está correto em buscar esta aliança. Alckmin foi governador de São Paulo quatro vezes. É uma pessoa absolutamente experiente.

Não acredita que esta união vai gerar ruídos?

RC – Se formos restringir nossas alianças a quem nunca trocou críticas entre si, não teremos união de ninguém. Poucos não trocaram críticas entre si nos últimos 20 anos no Brasil. A situação do país requer responsabilidade, requer descer a vaidade de cada partido, de cada pessoa, para colocar o Brasil em primeiro lugar.

Então, eu vejo positivamente essa união. É uma excelente sinalização de que nós queremos estabilidade e uma recuperação do Brasil de longo prazo. Não estamos preocupados com projetos individuais ou partidários e sim com a reconstrução do país.

Isso passa necessariamente por uma aproximação de setores da direita? Passa também por curar as feridas abertas nos últimos anos?

RC – Mais importante do que rótulos ou estigmas, temos que discutir conteúdo. O que faremos do Brasil? Quais são os projetos que nós adotaremos?

Acho que essa aliança tem pouca base sólida com quem caminhou com o Bolsonaro na sua integralidade, quem apoiou Bolsonaro, quem esteve e está até o dia de hoje com ele. Mas podemos conversar com aqueles que têm demonstrado uma insatisfação desde o início do governo Bolsonaro. Acho que esse é o limite. Até para também não ser um negócio de mero oportunismo eleitoral. Tem que ter alguma consistência de programa.

Como é que o sr. vê um possível mandato caso o presidente Lula seja eleito? Será o retorno de um Estado mais indutor na economia?

RC – Ele receberá um país muito pior. Terá um Estado com menor capacidade de indução direta ao desenvolvimento, visto que a poupança interna e a capacidade fiscal do governo são muito piores hoje do que em 2003.

Considero que haverá um papel fundamental do governo, não necessariamente como executor direto, mas como indutor para o investimento privado no país. É fundamental que o Estado participe. Quem passa confiança, credibilidade e segurança institucional é o governo. Não podemos sinalizar que toda hora muda a lei para tirar o presidente, muda a Constituição para dar um calote numa dívida. A função do governo será restabelecer a confiança no país.

Qual a sua avaliação sobre o cenário que se desenha para a eleição de 2022? Acha que a eleição tende a polarizar entre Lula e Bolsonaro? Como viu a entrada de Moro e Doria no tabuleiro?

RC – Não acredito que haja espaço para crescimento de outras candidaturas. De um lado, teremos um projeto que se mostrou desastroso para o país, que aumentou o desemprego, a pobreza e diminuiu drasticamente o investimento externo. Com esse cenário, como diz a música, o povo ficou com saudade do ex.

Então, acho pouco provável que alguém consiga estabelecer um novo cenário que não seja a disputa entre Lula e Bolsonaro. Não acredito em candidaturas do estilo do Sergio Moro porque as pessoas preferem o autêntico do que o genérico. Moro nada mais é do que um genérico do Bolsonaro.

Não acredito no crescimento do Moro, em hipótese nenhuma. E acho pouco prováveis as outras alternativas, até pelo tempo de campanha e a extensão territorial do país. Você não fixa um nome apenas porque ele foi governador. É preciso que se estabeleça algum tipo de vínculo, seja nas ideias, seja pessoal.

Como o sr. viu esse movimento de aproximação do presidente com uma base mais fisiológica, caso de partidos como PP e PL?

RC – O Congresso desejava capturar o Orçamento federal. Uma parte disso é o tal do orçamento secreto, que ninguém sabe a origem e qual o destino do recurso. As cifras são astronômicas. Parte virou investimento puramente eleitoreiro, com muito ruído de problemas de ética.

Por outro lado, havia um interesse do presidente, que se viu ameaçado de um possível impeachment e denúncias em relação a seus filhos, de ter uma proteção maior do Congresso. Eu diria que juntou a fome com a vontade de comer: o desejo do Congresso de capturar o Orçamento e o dele de buscar maior proteção para ele e para família. Ele praticamente abriu mão de governar.

Essa aproximação atrapalha a sua relação com esses partidos? Parte deles compõe a sua base aliada.

RC – Não acredito. O ruído pode acontecer nas opções feitas daqui para frente. Se algum dos partidos da nossa base optar por Bolsonaro, eventualmente haverá incompatibilidade de caminhos. Acho que vai ser uma eleição muito polarizada nacionalmente.
A disputa do ano que vem terá uma influência muito maior da eleição nacional nas disputas estaduais. Eu espero que haja essa polarização porque é preciso eleger um Congresso Nacional que, de fato, ajude a construção dessa identidade, dessa unidade nacional.

Não dá para ter um Congresso que vai repetir orçamento secreto ou essa chantagem com o presidente da República. Com esse modelo que foi estabelecido do Congresso com Bolsonaro, ninguém governa o Brasil. Esse modelo está destruindo o Brasil.

O potencial adversário do PT na Bahia aposta no contrário. ACM Neto tem dito que a eleição não deve ser nacionalizada e tenta se afastar de Bolsonaro. Acha que essa estratégia funciona?

RC – Ele tenta um milagre, que é o milagre de se desassociar da figura do presidente da República. Ele fez campanha, pediu voto para Bolsonaro.

Tem vídeos e fotos dele abraçado com o presidente. O ex-chefe de gabinete dele é ministro de Bolsonaro. Até o dia de hoje, quem dá sustentação ao governo Bolsonaro são os parlamentares do DEM, que na Bahia possuem a indicação de todos os órgãos federais. Essa imagem é difícil de ele separar.

Auxiliares do presidente dizem que ele deve ganhar terreno no Nordeste com a criação do Auxílio Brasil e o aumento do valor do benefício. Acha que essa correlação tem sentido?

RC – É o que eles buscam. Algum impacto eventualmente pode ter, não vou dizer que o impacto é zero. Mas é péssimo quando você muda completamente as políticas de governo.

Durante todo esse governo, não teve um planejamento nem uma visão de longo prazo para a educação, a saúde, a infraestrutura. Simplesmente, há uma ausência de governo, uma ausência de planejamento. Tudo se transformou em medidas meramente eleitoreiras e um imenso desperdício de recursos Brasil afora.

O PT vai completar um ciclo de 16 anos na Bahia e apresentou a pré-candidatura do senador e ex-governador Jaques Wagner ao governo. Não acha que seria hora de abrir espaço para partidos aliados?

RC – Vamos defender é que esse perfil de prioridades seja mantido, independentemente do nome e do partido que esteja liderando esse projeto. Não tem nenhum veto para que outros partidos possam liderar. Ainda estamos conversando. É possível que nesse grupo que vai liderar tenham pessoas de partidos diferentes.

O sr. não construiu um nome novo para sua sucessão na Bahia. Foi uma opção sua?

RC – Não foi opção. Você não constrói nomes novos por decreto. As coisas acontecem e os nomes vão se fixando conforme o cotidiano da política. Acho que temos nomes fortes. Mas não há um nome novo consolidado.

RAIO-X

Rui Costa dos Santos, 58
Nascido em Salvador em 1963, é economista. Secretário da Casa Civil do governo Jaques Wagner, concorreu e venceu o pleito estadual de 2014, reelegendo-se com votação recorde em 2018. É casado e tem quatro filhos. É filiado ao PT desde 1982.