Brasil tem recorde de baleias jubarte encalhadas no primeiro semestre

Tomaz Silva/Agência Brasil

Um recorde de encalhe de baleias jubarte foi registrado no Brasil no primeiro semestre deste ano, segundo monitoramento feito pelo Projeto Baleia Jubarte em todo o litoral do país. Se o ritmo atual de incidentes permanecer, 2021 pode ser o ano com mais encalhes de jubartes.

Foram 48 encalhes desses cetáceos nos seis primeiros meses de 2021.

O recorde anterior pertencia ao ano de 2016, com 22 incidentes documentados.

Para termos de comparação, o primeiro semestre de 2021 já superou os encalhes anuais registrados nos anos de 2002 até 2009, 2011, 2012 e 2015.

“Talvez estejamos começando o pior ano de encalhes desde que começamos a registrá-los”, afirma Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do Projeto Baleia Jubarte.

São diversas as razões possíveis para encalhe, que na maior parte das vezes é sinônimo de baleias mortas chegando à praia. Os óbitos podem ser naturais, como por velhice ou por doença, podem ser resultado de filhotes que se separaram das mães, mas também podem ser resultado de atividades humanas, como contato com redes de pesca e poluição.

Há ainda outras possibilidades. Segundo Marcondes, baleias magras e se alimentando nos litorais de São Paulo e Santa Catarina -estados líderes nos encalhes- têm sido observadas.

Os animais que migram pelas costas brasileiras normalmente se alimentam nas águas antárticas da Geórgia do Sul e vêm ao litoral brasileiro para se reproduzir e ter filhotes.

O pesquisador afirma que a maior parte dos animais encalhados neste ano são jovens que ainda não alcançaram a maturidade sexual e estão aproveitando os volumosos cardumes de peixes nos litoral paulista e catarinense para se alimentar.

“Como não estão na idade de reproduzir, aparentemente não estão subindo para Abrolhos e talvez fiquem pelo sul e sudeste se alimentando”, diz Marcondes.

O Parque Nacional Marinho de Abrolhos é conhecido como um importante berçário das baleias jubartes (Megaptera novaeangliae) no oceano Atlântico Sul, o que proporciona turismo de observação de cetáceos na área.

As jubartes se alimentam de krill (diminutos crustáceos) e pequenos peixes. Para o banquete, as baleias sugam a água do mar e “filtram” suas presas.

Animais mais magros poderiam indicar, segundo Marcondes, uma diminuição recente da oferta de krill. O impacto das mudanças climáticas nesses pequenos crustáceos com complexo ciclo de vida causam preocupação entre pesquisadores, especialmente pela participação do krill na cadeia alimentar.

Uma pesquisa publicada na revista Nature Climate Change mostrou que as mudanças climáticas podem empurrar mais para o sul as áreas onde o krill podem se desenvolver, além de poderem desencadear uma certa incompatibilidade entre o ciclo de vida do krill e as condições oceânicas durante o ano.

No site The Conversation, os autores da pesquisa escreveram que, em momentos passados de pouca disponibilidade de krill, houve queda no sucesso reprodutivo de espécies como lobos-marinhos, pinguins e albatrozes, espécies que predam esses crustáceos.

“A cada ano, as baleias jubarte migram dos trópicos para os pólos para se alimentar da enorme quantidade de krill de verão. Se o pico do krill ocorrer mais cedo, as baleias devem se adaptar chegando mais cedo ou acabarão com fome”, dizem os autores.

Mas o maior número de encalhes também pode ser tido, indiretamente e em parte, como uma espécie boa notícia.

“A população de baleias jubarte está crescendo”, afirma Marcondes. “Com mais baleias você tem mais encalhes.”

De fato, a situação das jubartes melhorou a ponto desse mamífero ter sido retirado da última lista de espécies ameaçadas de extinção. O “Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção”, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), aponta que a continuidade da proibição de caça e as iniciativas de conservação são essenciais para a espécie continuar fora de risco.

A nem tão antiga pesca comercial de baleias impactou fortemente as populações de jubartes no mundo. Uma moratória de caça de baleias, instituída pela International Whaling Commission e em vigor desde 1985/1986, tem ajudado na recuperação das jubartes, segundo a NOOA (National Oceanic and Atmospheric Administration, agência dos EUA).

Mas isso não quer dizer que todas as ameaças foram extintas. Os grandes cardumes no litoral de São Paulo e Santa Catarina aproximam as jubartes da atividade pesqueira comercial, o que pode colocar esses cetáceos em risco.

O ano de 2021 também já detém número recorde de baleias presas –e mortas– em redes de pesca, segundo Marcondes, que ainda contava com dados provisórios na última vez em que conversou com a Folha.

O pesquisador diz estar preocupado com a mortalidade atípica nesse ano. “Se forem mesmo mudanças climáticas afetando o ecossistema da Antártida e diminuindo a oferta de alimentos para as baleias, isso pode ser um problema sério”, afirma Marcondes. “De qualquer maneira, se não é um problema que afeta a recuperação da espécie, certamente é um problema de bem-estar animal. As baleias que morrem por falta de alimento ou vítimas de emalhe em redes de pesca sofrem muito.”