Brasileiro opta por doar em dinheiro, mas tecnologia pode motivar mudança

A diretora-presidente do Idis, Paula Fabiani

​O brasileiro ainda prefere realizar doações em dinheiro vivo. Segundo a pesquisa Giving Report 2019 Brasil, realizada pela CAF, representada no país pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), 68% fizeram a benesse dessa forma nos 12 meses anteriores ao estudo. Já os que doaram via uma plataforma digital foram 12%.

“A boa notícia é que a tecnologia trouxe vários caminhos. Hoje tem o crowdfunding, a doação online, que vem crescendo como uma prática, e outros mecanismos que facilitam a doação”, afirma Paula Fabiani, diretora-presidente do Idis, parceiro do Prêmio Empreendedor Social.

“A má notícia é que as pessoas ainda preferem fazer a doação em dinheiro, ainda não utilizam esses mecanismos para realizar sua doação.”

Ferramentas online criadas para estimular a cultura de solidariedade no Brasil, no entanto, tentam quebrar essa dificuldade. Uma delas é o Joyz, um aplicativo com interface similar à do Instagram.

Ao invés de perfis pessoais, há doadores e causas. Quem quiser doar, basta rolar o feed e acompanhar as fotos postadas por quem está captando. Além dos botões de curtir e comentar, há também o “J”, que permite a doação de até cem “joyz” -moeda que equivale a R$ 0,10.

“Só pode doar uma vez por foto, e isso obriga a causa a alimentar o perfil. A causa que consegue um bom engajamento precisa estar sempre alimentando”, explica Gabriel Khawali, diretor Comercial do Joyz.

Além de fomentar a microdoação, a medida coíbe a criação perfis falsos, pois exige um alto envolvimento com a plataforma para conseguir um bom volume de recursos. O saque, que demanda informações pessoais como CPF e conta-corrente, é outra maneira de manter os fakes fora da rede.

Entre aqueles cadastrados para receberem doações, que já arrecadaram R$ 512,9 mil com mais de três milhões de curtidas, podem constar causas como as que captam recursos para pets, para tratamentos de crianças e ONGs de maneira geral.
Uma outra plataforma que já é conhecida do brasileiro para arrecadar recursos, o financiamento coletivo chegou de maneira tímida ao país. Um dos maiores sites hoje, o Vakinha surgiu em 2009 e alcançou marca histórica em 2018 com R$ 50 milhões arrecadados e 150 mil “vaquinhas” criadas.

“A gente tem notado que muitas pessoas estão preferindo ou migrando para esse formato de doação direta para causas, quando tem uma pessoa beneficiada diretamente. Isso tem colaborado bastante para o crescimento da plataforma”, explica Cristiano Meditsch, diretor de Marketing do site sobre o crescimento, em contraponto às doações para organizações.

As doações online para organizações também têm ganhado volume, de acordo com Nicolle Stad, criadora da Inti, uma plataforma de gestão, CRM (Gerenciamento de Relação com Consumidor, na sigla em inglês) e BI (Inteligência de Negócios, também na sigla em inglês), de ingressos, doações e inscrições para cursos.

Em 2018, R$ 5 milhões foram doados para as 30 organizações que atende, entre ONGs, museus e outras instituições do mercado cultural. O valor é um crescimento de 18% em relação ao ano anterior.

A fundadora da Inti atribui o acesso da plataforma principalmente à interface adotada: apesar de estar dentro da Inti no momento de compra ou doação, o usuário tem a impressão de continuar no site da organização.

“Surgimos em 2015 para ajudar os museus e ONGs a captarem recursos. Quando pensamos nisso, descobrimos que ter um intermediário, como PayPal e Pagseguro, é ruim. Tem que parecer que está doando direto”, explica Stad.
“Foi assim que nascemos para fazer o Amigo Masp [do Museu de Arte de São Paulo]. Quando clica em ‘doar’, parece que está dentro do site do Masp, mas está em nosso sistema. O programa [do museu] cresceu 400% se tornou o maior do país em seis meses [desde que começou a usar a plataforma].”
Para ela, as doações online são o próximo patamar da digitalização e ganham força com as redes sociais. “Quando começou a compra online, existia um pouco essa desconfiança. Cada vez mais o brasileiro está se familiarizando com o consumo digital, e isso acaba se espelhando em doação também.”
Já o diretor da Joyz vê nas plataformas online uma forma de otimizar a solidariedade. “Tinha muita gente que falava que não fazia o bem porque não tinha tempo de ir até as causas. Hoje, por meio do Joyz, uma pessoa que não tem tempo pode doar dinheiro e carinho, trocar mensagens, mesmo sem estar próximo.”

Como forma de incentivar essa cultura e utilizando a internet como meio, o Idis lançou em dezembro a campanha Descubra sua Causa, um teste online que culmina em um perfil de doador e em organizações alinhadas com ele. “O objetivo é engajar as pessoas na prática da doação. A estregátia que enfatizamos bastante é o digital, as mídias sociais, que têm potencial de viralização enorme a um custo muito menor”, explica Paula.

Ela acredita que, com o passar do tempo, a tendência é que as doações online cresçam. “As pessoas estão substituindo o dinheiro por cartão e muitos já estão usando o próprio celular para pagamentos. Quando isso se tornar uma realidade [a substituição], com certeza vai aumentar [a doação].”