Cada infectado passou Covid para 3 pessoas no início da pandemia no Brasil, diz estudo

Foto: Bruno Kelly/Reuters

Uma pesquisa publicada nesta sexta-feira (31) na revista científica”Nature Human Behaviour”, do grupo “Nature”, um dos mais importantes no mundo, mostra que, entre fevereiro e maio, cada pessoa infectada com a Covid-19 no Brasil infectou, em média, outras três com a doença.

O estudo descreve as características epidemiológicas da doença no país, onde mais de 90 mil pessoas morreram por causa da infecção. A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, da Universidade de Oxford e do Imperial College de Londres.

Esse índice é chamado de R0, e identifica quantas pessoas uma pessoa infectada é capaz de contaminar com uma doença. Para que a transmissão de uma infecção seja contida, esse número precisa ficar abaixo de 1 (ou seja, é preciso que uma pessoa infectada não consiga contaminar nenhuma outra).

Os cientistas frisaram, entretanto, que, como os valores são uma média, os índices do Brasil podem se aproximar, na prática, daqueles dos países europeus.

“Os intervalos críveis de nossas estimativa são mais baixos em comparação com as estimativas publicadas anteriormente para o Brasil”, lembram.

“Apenas a mitigação (e não a supressão) da epidemia foi alcançada até o momento, o que tem sido associado a um excesso substancial de mortes devido à falta de assistência médica disponível”, pontuam.

Desigualdade

Os pesquisadores também identificaram uma associação entre maior renda e mais diagnósticos de Covid-19. Já entre a população com menor nível socieconômico, houve mais casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) de causa desconhecida. A SRAG é uma das principais consequências da infecção pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2).

Os cientistas creditam a falta de acesso igualitário aos testes como um fator para a “disseminação rápida e sustentada da epidemia no Brasil”.

“Nossos dados descobrem um viés socioeconômico nos testes e diagnósticos nas diretrizes de vigilância atuais e sugerem que o número de casos confirmados relatados pode subestimar substancialmente o número de casos na população em geral, particularmente em regiões de menor nível socioeconômico”, dizem.

“Nossos resultados fornecem novas percepções sobre a epidemia brasileira de Covid-19 e destacam o alto potencial de transmissão do Sars-CoV-2 no país, o papel de seus grandes centros urbanos e a falta de lockdown”, afirmam os pesquisadores no estudo.