Cadê os gritos de “I can’t breathe!” pelos Floyds do Brasil

Há dez dias, uma multidão vai às ruas dos Estados Unidos por causa da morte de George Floyd, um homem negro assassinado por um policial branco, Derek Chauvin, que passou oito longos minutos esmagando o pescoço de Floyd, mesmo ele dizendo que não conseguia respirar – I can’t breathe! Queria tanto ouvir esses gritos nas ruas do meu país por tantos Floyds, homens, mulheres e crianças negras que são assassinados por policiais, nas comunidades pobres e nas favelas. Eles já não respiram mais.

E eu também não consigo respirar ao ver a morte de um menino de 14 anos, João Pedro Mattos, durante uma operação da Polícia Federal e da Polícia Civil, realizada no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Ao contrário do que ocorre no caso de George Floyd, não se vê uma comoção pública por causa da morte de um menino negro no Brasil. Não há nenhum policial preso. Não se sabe os culpados. A família de Floyd está vendo a Justiça acontecer. A família de João Pedro até agora não.

E como chorar por Floyd e não lembrar da vereadora Marielle Franco, uma mulher negra, covardemente assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes, por um policial reformado Ronnie Lessa e por um ex-PM Élcio de Queiróz. Até hoje não se sabe quem deu a ordem para matar Marielle. O silêncio dos matadores, como a temer por suas vidas, faz crer que há gente influente por trás disso. No caso de Marielle e Anderson só existiu até agora uma justiça pela metade.

E são tantos os Floyds mortos no Brasil, que esse espaço seria pequeno pra contar cada caso. Homens mulheres e crianças negras para os quais não tiveram manifestações, protestos, homenagens, lágrimas e cantos de dor. Nossos cidadãos negros morrem sem sequer direito à Justiça enquanto policiais criminosos acabam recebendo medalhas pelos “relevantes serviços prestados ao Estado”.