China disputa com Alibaba e Tencent para implementar sua moeda digital

Dado Ruvic/Reuters

O e-yuan da China é uma das iniciativas de moeda digital de um banco central mais avançadas do mundo, com mais de 2 bilhões de yuans (US$ 314 milhões) gastos até agora. No entanto, o país tem dois obstáculos pela frente: o AliPay e o WeChat Pay, principais meios de pagamentos no país.

A China iniciou as conversas sobre criptomoedas em 2014 e começou seu projeto piloto no fim do ano passado. Segundo o jornal South Morning China, existem hoje 11 regiões do país em que o e-yuan foi implementado para testes.

O plano do país é colocar a moeda em circulação entre estrangeiros durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. A ideia é que esse grupo possa fazer as conversões de suas moedas nacionais direto para o e-yuan.

Kelly Luostarinen, diretora em intercâmbio da PwC China no Brasil, afirma que a corrupção e a lavagem de dinheiro levaram o governo a olhar mais atentamente para as moedas digitais. “Houve esse movimento por parte do banco central de manter a soberania monetária”, diz.
Outra razão para a ofensiva chinesa na área é o crescimento das big techs do país, afirmam analistas. A autoridade central chinesa vem impondo sanções a grupos como Alibaba e Tencent desde o fim do ano passado.

As empresas são dois “monstrinhos”, segundo Adrian Cernev, professor do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (Fundação Getulio Vargas), criados pelo próprio Banco Central chinês ao impulsionar meios digitais de pagamento nacionais para contornar a necessidade de pagamento de royalties de cartão de crédito para os EUA.

Essa política levou Alibaba e Tencent a dominarem quase 90% dos meios de pagamento na China hoje. “O BC quis resolver um problema, que era o dos royalties, e acabou resolvendo. Mas acabou criando um duopólio. Por mais que o Estado tenha grande poder de controle, as empresas também têm”, diz Cernev.

A revolução pela qual a China passou nos meios de pagamento começou em 2010 e, neste curto prazo, redefiniu toda a estrutura da área do país, afirma Alberto Serrentino, fundador da Varese Retail e consultor e conselheiro de empresas.

Essa nova configuração integra do varejo físico ao marketplace, passando pelos meios de pagamento eletrônicos, o que permite a formação de uma grande base de dados de clientes. Esse processo foi capitaneado pelas big techs, cujas unidades de negócios -como o marketplace Alibaba e o app de pagamentos AliPay- ligam uma ponta à outra.

“A China é confundida como economia centralizada e estatizada, mas não é verdade. O país tem um capitalismo selvagem no empreendedorismo”, afirma Serrentino.

Com isso, Alibaba e Tencent acabaram cumprindo o papel de emissor e de carteira digital, o que barateou, conectou e deu acesso a crédito, pagamento e consumo. “O governo chinês tem uma postura de não sufocar antes que uma iniciativa amadureça. No caso das carteiras digitais e meios de pagamentos, deixaram solto durante muito tempo, com pouquíssima regulamentação”, afirma o empresário.

“O fato é que a China tem uma política agressiva e ágil”, diz Camila Ghattas, presidente-executiva da Foreseekers, empresa que conecta empresários brasileiros e chineses. Ghattas destaca que o desenvolvimento de planos quinquenais, que têm focado cada vez mais na ampliação e democratização da tecnologia, facilita a disseminação de meios de pagamentos digitais e também estimula o uso da e-yuan.

“Estamos falando de quase um bilhão de chineses com smartphone, de uma população total de 1,4 bilhão”, afirma a empresária. “Não é preciso muito investimento para ter um bom aparelho, e vemos a escalada de desenvolvimento do 5G, o que temos visto é que o governo tem política de incentivos para empresas para interiorizar”.

A China não está sozinha na criação de uma moeda digital própria. Segundo o índice de desenvolvimento de moedas digitais de bancos centrais da PwC, empresa de consultoria e auditoria, Camboja e Bahamas já passaram de projetos iniciais e estão mais avançados na implantação das carteiras digitais. Publicado em abril, o estudo mostra que mais de 60 bancos centrais no mundo estudam a aplicação de uma moeda digital desde 2014.

Os bancos centrais trabalham em dois modelos para implementar as criptomoedas. O primeiro é a aplicação no varejo, onde as moedas digitais podem ser usadas pela população e empresas. Outra via é o atacado, onde as moedas digitais ficam restritas às instituições financeiras, como operações no mercado financeiro.

Segundo a pesquisa da PwC, os projetos aplicados no varejo estão mais avançados em países emergentes, onde vigoram pautas como a inclusão financeira e a digitalização. As aplicações no atacado aparecem em economias mais desenvolvidas, com sistemas interbancários e mercados de capitais mais desenvolvidos.

Ainda não existem no mundo projetos no atacado que tenham atingido um nível de maturidade como a do varejo. No entanto, quase 70% dos projetos no atacado já estão com pilotos, enquanto 23% no varejo alcançaram esse estágio de implementação.

E o Brasil?

O Banco Central brasileiro criou no fim de maio as diretrizes para o desenvolvimento de uma moeda digital. O presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, afirmou que trará “em breve” novidades sobre o lançamento do dinheiro digital oficial.

Segundo o BC, a primeira etapa do cronograma foi a criação de um grupo de trabalho, em agosto do ano passado, para discutir impactos, benefícios e custos do novo modelo monetário. A ideia é ter a implementação do dinheiro virtual até 2022.

“Quando vamos implantar aqui? Não será tão cedo. A dor que o chinês tem [a do duopólio] nós não temos, temos o Pix, que está sendo muito bem aceito pela população”, diz o economista Adrian Cernev.

Quanto aos meios de pagamentos, o Brasil vive uma proliferação de empresas que investem na fintechzação. “Todos querem criar um efeito de rede. Mercado Pago começa cadastrando quem é do Mercado Livre, a Magazine Luiza cria o MagaluPay”, diz o economista.

Para o empresário Alberto Serrentino, o Brasil não tem uma concentração tão grande na liderança do processo da diluição de meios de pagamento. “Tem movimentos fortes dos players estabelecidos, como Itaú, Bradesco e Santander. Tem bancos se tornando ecossistemas, como o Inter, BTG, XP, fintechs como Mercado Pago, C6, e o próprio varejo criando braços financeiros. Isso cria uma competição diversificada e acirrada”, afirma.

Para ele, temos alavancas importantes no Brasil como o Pix. “O Banco Central democratizou a digitalização de pagamentos digitais, transformou isso em um sistema seguro e estável. Isso vai fomentar muita competição, crescimento de fintechs, e ser uma alavanca de modernização para bancos tradicionais”, diz o empresário.

“O Pix é para todos, não tem classe social, como um cartão de crédito. Não teve degraus, como o cartão de crédito que, em quase 70 anos, chegou à classe C há 15 anos”, diz Cernev.