Chinesa Alibaba negocia Viracopos para criar um centro de distribuição

Em uma grave crise financeira e sem um projeto viável, o aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), pode virar um centro de distribuição da chinesa Alibaba.

A gigante asiática do comércio eletrônico está representada no Brasil pela Global Logistic Properties, que negocia com os sócios do aeroporto.

Os valores da operação não foram revelados mas, segundo pessoas que participaram das conversas, houve uma entrega de proposta que prioriza o tráfego dos aviões da própria companhia chinesa.

Desde 2012, Viracopos é administrado pela Aeroportos Brasil, concessionária controlada por empresas privadas -UTC, Triunfo e Egis-, que tem a estatal Infraero como sócia (49% de participação).

Os chineses querem adquirir o controle da concessão e pretendem desenvolver um projeto com mais recursos para a movimentação de cargas e menos para o tráfego de passageiros que segue em declínio desde a privatização.

O Alibaba chegou ao Brasil, em 2014, com o site de compras AliExpress, voltado ao varejo, e com o Alibaba.com, para compras no atacado. No ano passado, o Brasil chegou a ser o quarto maior mercado do grupo com cerca de 2,5 milhões de clientes.

Recentemente, em viagem ao Brasil, Jack Ma, controlador da Alibaba, afirmou publicamente que estudava formas de ter um escritório no país para fomentar, além da venda de artigos produzidos na China, investimentos em logística e a oferta de crédito.

Mas os chineses não estão sozinhos na disputa. O fundo de investimentos IG4, em conjunto com a operadora aeroportuária Zürich, propôs aos atuais acionistas um pagamento de R$ 500 milhões, quitar as outorgas em atraso, e converter em ações a dívida de R$ 2,6 bilhões com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O banco concentra 90% da dívida do aeroporto -que totaliza R$ 2,9 bilhões. O restante R$ 300 milhões) seria assumido pelos compradores.

A concessionária CCR, que pertence à Camargo Corrêa, também está interessada.

O grupo já controla a concessão do aeroporto de Confins (MG), que concorre no transporte de cargas com Viracopos, e está interessado em arrematar os blocos de aeroportos liderados por Recife (PE) e Vitória (ES) a serem leiloados até o final deste ano.

Com os aeroportos a serem arrematados, Viracopos também funcionaria como ponto de conexão para voos no Nordeste e Sudeste.

Para concretizar esse plano, o grupo planeja construir um linha própria de trem passando pela rodovia dos Bandeirantes -administrada pela CCR- e que liga o aeroporto de Viracopos a São Paulo.

Segundo pessoas que acompanharam as conversas com a CCR, a ideia é captar com essa malha ferroviária o excedente de passageiros de Guarulhos que hoje vão para o aeroporto do Galeão (RJ) como destino final ou para fazer conexões com o Nordeste.

Viracopos faz parte de um grupo de aeroportos privatizados pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2011 e que previram o pagamento de cerca de R$ 24 bilhões em outorgas para a União. O cálculo dos lances levou em consideração um cenário econômico em expansão com demanda de passageiros e cargas suficiente para bancar as outorgas.

O grupo que arrematou Viracopos ofereceu pagar R$ R$ 3,8 bilhões com um ágio de quase 160%. Naquele momento, as projeções indicavam que, já em 2016, quando a fase de investimentos estaria concluída, haveria 17,9 milhões de passageiros e um a movimentação de carga de chegaria a 409 mil toneladas.

Logo no início, a empresa enfrentou dificuldades de caixa e teve multas por atraso nas obras de ampliação. O novo terminal foi inaugurado em 11 de novembro de 2014 sem estivesse totalmente pronto.

Três dias depois, o então presidente da UTC, Ricardo Pessoa, foi preso pela Polícia Federal na Lava Jato. Pessoa foi o principal idealizador do projeto, junto com a Triunfo.

Em 2016, quando as obras foram concluídas e enfrentando severas restrições financeiras, Viracopos transportou 9,3 milhões de passageiros -52% do projetado pelo governo- e movimentou 166 mil toneladas de cargas -41% do estimado.

Em julho de 2017, a UTC entrou com pedido de RJ (recuperação judicial) e muitas das responsabilidades financeiras foram assumidas pela sócia Triunfo –que também foi se deteriorando. Diante disso, a concessionária pediu para a Agência Nacional de Aviação (Anac) a devolução da concessão para a União. A agência negou e abriu um processo para cassar a concessão.

O caso foi para o STJ (Superior Tribunal de Justiça), que negou o pedido. Nesse cenário, a concessionária entrou com em RJ e o processo está paralisado. Consultadas, IG4, Global Logistic Properties e CCR não quiseram comentar.

Fonte: Folhapress.