Cidadãos invisíveis para um governo indiferente

Mesmo sem poder ver, já que proibiram o Radar sequer de entrar na recepção da unidade de saúde, mas basta o que ouvi, na maternidade Balbina Mestrinho, nesse sábado (21), pra ficar com certos fatos na minha mente para o resto da vida. Fomos naquela unidade de saúde para checar denúncias feitas, através do meu telefone pessoal, sobre mulheres que estariam passando por uma espera angustiante e dolorosa para ter seus bebês por falta de estrutura naquela maternidade.

É logico que casos como de uma mulher, com o bebê morto dentro dela há quatro dias, me chocaram profundamente. Assim como o caso da grávida que estava há dois dias “internada” na Balbina Mestrinho – sentada em uma poltrona velha no corredor – sem que fizessem uma cirurgia cesariana, mesmo tendo sido encaminhada para uma maternidade, como “caso de urgência”, desde o dia 17 deste mês. “Minha irmã está mal, as pernas estão ficando roxas, estou com medo por ela e pelo bebê”, disse Diana, irmã da paciente internada, com lágrimas nos olhos.

Vivenciamos o desespero dos parentes dessas mulheres, já que não há ninguém para dar meras respostas sobre o que está acontecendo, pra dizer até quando essas mulheres vão continuar sentindo dores sem atendimento médico, por que não fazem logo a cesariana e se essa espera de dias não está comprometendo a saúde do bebês, fazendo com que eles sofram. São muitas as perguntas e nenhuma resposta. Médicos e enfermeiros entram e saem da maternidade, passam por nós e parecem não nos enxergar, como se fôssemos invisíveis.

Jamais esquecerei do único profissional de saúde que parou para falar comigo e com Diana – a irmã de uma das pacientes, lembram? Notei que esta senhora, funcionária da maternidade, só parou porque estava acompanhada de alguém que conheço há anos, desde os tempos em que era diretora de Comunicação da Câmara Municipal de Manaus, e essa pessoa parou pra falar comigo.

Não sei que cargo ela ocupa na maternidade, mas levando-se em consideração o jaleco branco, deve ser médica. Confesso que fiquei tão chocada com o que ela dizia e, principalmente da forma que dizia, que fiquei com algo próprio dos repórteres, o senso de observação, prejudicado. Ela falou com um tom de indiferença sobre a situação das grávidas como se estivesse falando de algo trivial – tipo comprar banana na feira – e não de gente.

“Qual é o caso da sua irmã”, disse ela se virando pra Diana e acrescentando: “É o da mulher que está com bebê morto na barriga?”, disse numa frieza desumana e sem nem notar que estava causando desespero em Diana que estava com a irmã sofrendo pra ter seu bebê. A dita médica mal esperou a resposta dada por Diana, virou de costas, entrou num carro e foi embora.

Essa reação de indiferença com a dor das mulheres da nossa terra e com seus filhos, cidadãos do Amazonas que ainda nem nasceram, infelizmente agora fazem parte da minha história de vida, assim como a ausência dos gestores de um Estado, com passagens e diárias pagas com dinheiro público. Sem contar, com integrantes desse mesmo governo que nos finais de semana vão curtir com suas famílias, com salários pagos pelos mesmos cidadãos que eles tratam como seres invisíveis.