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Cidade das Luzes ou Monte Horebe: o que mudou defensor?

O anúncio da iminente desocupação da área denominada de Monte Horebe, na Zona Norte, consequência de uma decisão judicial de reintegração de posse assinada pelo juiz Ronnie Frank Torres Stone, com o que parece ser o total e irrestrito apoio do Governo do Estado, me fez vir à mente vários questionamentos, mas os principais giram em torno das semelhanças, com outra ocupação de terra, a denominada Cidade das Luzes, no bairro Tarumã, Zona Oeste de Manaus, área que passou pelo mesmo processo de retirada dos moradores em 2015, e que tem um personagem comum nas duas histórias, o defensor público Carlos Alberto Almeida, agora vice-governador do Amazonas.

Naquela época o Radar Amazônico estava recém-nascido, tinha apenas dois anos de existência e se resumia a um computador pé duro – daqueles que a gente muitas vezes tem que dar uma porrada do lado pra ele ligar – na sala de casa, mas não tinha como não prestar atenção para a atuação de um defensor público que não mediu esforços para defender os ocupantes da área de Cidades das Luzes, preferencialmente chamados de “invasores” por grande parte da sociedade, inclusive da imprensa local, igual tratamento dado quando se trata das pessoas que ocupam as terras do Monte Horebe.

As mesmas justificativas dadas pelo Poder Público para a retirada dos “invasores” do Monte Horebe também aconteceram com a reintegração de posse de Cidade das Luzes. Nos dois casos, fala-se em destruição do meio ambiente, no caso de Cidade das Luzes, o que se falava era que “a invasão estava poluindo o lençol freático e soterrando o igarapé do Tarumã” e no Monte Horebe, “a invasão está avançando sobre áreas da Reserva Florestal Adolpho Ducke”.

Uma segunda justificativa para o fim das duas “invasões” é o comando do tráfico nessas áreas. No discurso do Poder Público e da Secretaria de Segurança, tanto no caso de Cidades das Luzes quanto no do Monte Horebe, os moradores desses locais estariam nas mãos de traficantes e criminosos – mas num é exatamente o Poder Público e a polícia que deveria acabar com a criminalidade? E ao invés de prender criminosos, eles desalojam pessoas dos seus barracos. Muito lógico, né mesmo?

E o que mais causa estranheza, é que esses argumentos sobre a ocupação do Monte Horebe, da existência de “crime ambiental” e “ocupação de terra comandada pelo tráfico” vêm do mesmo personagem, aquele que um dia foi o defensor público do Atendimento de Interesses Coletivos, Carlos Alberto Almeida e que agora é o vice-governador do Estado. Aquele que antes cobrava do Poder Público uma posição sobre o destino dessas pessoas, para onde seriam levadas, assim como uma política habitacional que garantisse que elas teriam casa própria.

Mas o agora vice-governador do Estado e governador em exercício para esses e muitos outros assuntos do Estado, Carlos Almeida, diz o seguinte: “Nosso foco, a preocupação do governador Wilson Lima, é com as pessoas, com quem de fato precisa de moradia e que também sofre com a atuação do tráfico de drogas. Vamos dar toda a assistência social a essas pessoas e vamos livrá-las das mãos da criminalidade”.

E o que se espera é que esse discurso de quem deixou o cargo de defensor público e agora está no comando do Estado não gere uma romaria de miseráveis, inclusive mulheres e crianças, sem terem pra onde ir que vão invadir outra área onde o tráfico também existirá sem que apareça polícia e Governo pra dar um jeito neles, a não ser garantir que mais uma reintegração de posse será feita e muitos inocentes sofram pelos pecados de outros tantos que vivem da miséria alheia.