Coitado desse porteiro!

Ele sequer tem um nome! É chamado apenas de porteiro e trabalha no condomínio Vivendas da Barra onde morou, até 31 de dezembro do ano passado, o agora presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. Lá também tem casa, o policial militar reformado Ronnie Lessa, suspeito de ter efetuado os disparos que mataram a vereadora Marielle Franco (Psol) e seu motorista Anderson Gomes. .

Não sei se o “Sr. porteiro” se deu conta, que ia se colocar no olho do furação de uma “tempestade” que tem sacudido o País, ao dizer em depoimento à polícia que, no dia do assassinato de Marielle (14 de março de 2018), interfonou para a casa de Bolsonaro e recebeu autorização do “Seu Jair” para deixar entrar no condomínio o outro acusado de participar do crime, o ex-PM Élcio de Queiroz.

Mas, ao contrário do que se espera de uma investigação séria, as atenções não se concentraram nos depoimentos e provas, se concentraram na figura do porteiro. Como de costume, sem qualquer prova que confirme o que está dizendo, o Sr Jair Bolsonaro, decidiu “julgar” publicamente o porteiro que, segundo ele, “está sendo influenciado por alguém para mentir”.

E fazendo coro com o presidente Messias Bolsonaro, a coordenadora do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio de Janeiro, Simone Sibílio, disse que “o porteiro mentiu” e que, por isso, pode “responder por crime de falso testemunho”. Ou seja, a culpa de tudo isso é do porteiro.

E nem interessa se uma das promotoras do MPE, Carmen Eliza Bastos de Carvalho, aparece em fotos fazendo campanha política para Bolsonaro e nem que é imoral e antiético ela não ter se julgado impedida de participar de uma investigação onde seu líder político é citado. Também não interessa se as promotoras do Gaeco só pediram perícia na gravação da portaria do prédio depois que a Globo divulgou o teor do depoimento do porteiro citando Bolsonaro e nunca se viu uma perícia tão rápida que durou duas horas e meia. O resultado é que o porteiro mentiu e ponto final!

E a justiça sequer se manifestou – fora que tem um monte de gente que ainda defende – sobre o caso do presidente Bolsonaro ter interferido nas investigações pegando a gravação da portaria do seu condomínio, segundo ele, “para que não fosse adulterada”. Só que o Sr. Jair jamais deveria sequer ter tido acesso a uma prova das investigações.

E não parece interessar também, se os moradores daquele condomínio dizem que o “Sr. porteiro” trabalha há mais de uma década naquele local e é um dos empregados mais antigos e confiáveis. O que importa nesse país é que ele é um porteiro e, do outro lado, está o “Sr Jair”, o presidente da República, assim como o MPE do Rio de Janeiro.

E pra piorar, Bolsonaro ainda decidiu fazer a Polícia Federal (PF) de sua polícia particular e colocar seu ministro da Justiça e seu xerife pessoal, Sérgio Moro, pra cima do porteiro. Bolsonaro quer um novo depoimento, desta vez na PF. Essa é a desmoralização para o MPE e para a Justiça desse País onde um presidente interfere de todas as formas nas investigações.

E lá estou, mais uma vez, vendo, minha saudosa e sábia mãe repetindo uma daquelas suas frases do tipo: – a corda só arrebenta do lado do mais fraco, minha filha! E eu penso cá com meus botões: coitado desse porteiro!