Com fim da pandemia incerto, 2022 terá menos mortes, dizem cientistas

A previsão de menor letalidade por Covid-19 durante a pandemia tem como base o avanço da vacinação no país

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Foto: Bruno Kelly / Reuters

A pandemia entrou em seu terceiro ano no Brasil com número de casos de covid-19 explodindo, mas, ao mesmo tempo, com esperança de dias melhores.

Especialistas em saúde preveem um cenário com menos mortes neste ano, mas de incertezas em relação ao fim da pandemia devido à onda de ômicron e a um eventual surgimento de novas variantes do coronavírus. A previsão de menor letalidade tem como base o avanço da vacinação.

Para Ana Brito, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Pernambuco, o cenário de 2022 é “bem melhor que o do ano passado”.

“Nós agora temos instrumentos e um arsenal terapêutico e profilático suficiente para interromper a transmissão desse vírus, ou seja, para que toda população do mundo seja vacinada. Isso é fundamental”, afirma a epidemiologista.

A gente só vai conseguir interromper a transmissão desse vírus quando toda a população do planeta estiver vacinada por uma razão muito simples: assim o vírus não vai ter mais pessoas suscetíveis ao adoecimento. E a velocidade de vacinação é determinante para que a gente possa interromper a doença também”, disse Ana Brito, pesquisadora da Fiocruz.

A bióloga e divulgadora científica Natália Pasternak prevê que 2022 seja o último ano de “estado global pandêmico”. “A pandemia como um fenômeno global provavelmente vai acabar, mas isso não quer dizer que o vírus vai embora: a gente vai continuar vendo surtos endêmicos, locais, sazonais.”

“À medida que a gente avança na vacinação, principalmente em países como o Brasil, de alta aceitação das vacinas, vai diminuindo os impactos da pandemia. O vírus continua lá, mas ele vai causar muito menos estrago”, diz a fundadora e primeira presidente do Instituto Questão de Ciência.

Vacinação global

Natália Pasternak diz que 2022 traz boas notícias no que se refere à expansão da vacinação no mundo, graças a iniciativas filantrópicas que tentam corrigir a desigualdade vacinal —e que ameaça todo o planeta com o surgimento de novas variantes.

2022 vai ser um ano para resolver o problema social, para que as vacinas cheguem em quem precisa, e fazer elas chegarem na quantidade necessária. Esse é o nosso maior desafio”, ressalta Natália Pasternak, bióloga.

Incerteza ainda assusta

O cientista Miguel Nicolelis é mais prudente em suas previsões para 2022 e afirma que, no momento, não é possível traçar cenários.

“Eu li esses dias um artigo de especialistas britânicos no ‘The Guardian’, e eles foram categóricos em dizer que não dá pra fazer uma previsão. Não tem bola de cristal, nem tem modelo matemático. Tanto pode acabar, como uma mutação do vírus pode piorar. Não existe uma linha reta em evolução natural, depende de várias condições. Previsão agora é chute”, diz.

Para Nicolelis, a melhor notícia de 2021 –e que vai ajudar muito neste ano– é que as vacinas mostraram que funcionam.

“Elas estão impedindo casos graves, mas a ômicron tem uma taxa de transmissão maior. Têm pessoas falando que há um lado positivo nela, que é o fim do túnel, e isso não tem nenhuma lógica”, afirma ele.

O presidente da SBV (Sociedade Brasileira de Virologia), Flavio Fonseca, segue raciocínio parecido.

Para ele, o fato de a última pandemia —da gripe espanhola— ter durado três anos não é parâmetro de comparação com a situação atual.

“Isso foi há cem anos. hoje estamos em condições muito diferentes: o trânsito global é intenso e imparável. Além do mais, três anos não é um número canônico para início e fim de pandemias.”

Combate ao negacionismo

Antônio Lima Neto, epidemiologista, professor e pesquisador da Unifor (Universidade de Fortaleza), diz que tanto os mais otimistas quanto os mais realistas têm “razão em alguns pontos”.

No caso dos otimistas, ele diz que a aposta é de que a ômicron ajude na missão de tornar a doença com letalidade menor.

“Nunca se viu, talvez, um vírus com esse poder de transmissão, mas que indica também que provavelmente ela seria menos virulenta porque tem uma capacidade menor de infectar o tecido pulmonar. Pode ser a evolução dele para conviver melhor e matar menos o seu hospedeiro”, diz.

Ele admite contudo que ainda é cedo para cantar vitória. “Diria que os mais realistas respeitam a imprevisibilidade da dinâmica do vírus. A principal questão é que nada impede que outras variantes venham seguindo a diminuição da virulência. Ela pode vir com mais agressividade”, diz.