Com medo de suspensão, grupos bolsonaristas tentam maquiar ameaças no app

Telegram
Imagem: Christian Wiediger/Unsplash

Grupos de direita e de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL) do Telegram têm tentado maquiar e moderar falas violentas de seus participantes contra a esquerda, em meio ao embate da Justiça contra comunidades virtuais e o aplicativo de mensagens no Brasil.

Casos de agressão como o ocorrido à caravana do ex-presidente Lula (PT), em Campinas (SP) no início de maio, chegam a ser comemorados e endossados nos grupos, mas ameaças diretas e promessas de agressão têm sido desestimuladas. Segundo especialista, a causa é o aumento da moderação no aplicativo, em especial às vésperas das eleições.

Em março, o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), atendeu a um pedido da Polícia Federal de suspender o Telegram no Brasil. Na decisão, a Corte determinava uma série de mudanças, entre elas, a suspensão de dois canais bolsonaristas.

Revogada 48 horas depois porque as exigências foram atendidas, a decisão irritou Bolsonaro e seus apoiadores. O aplicativo de mensagens tem sido um dos principais redutos da extrema direita no mundo desde 2016 e, no Brasil, é muito popular entre bolsonaristas.

Na última terça (10), o aplicativo voltou a ser centro de polêmica com a suspensão do “B 38”, maior grupo não oficial de apoio ao presidente na plataforma. Com mais de 67 mil membros, o canal voltou a funcionar, reformulado, na última quinta (12).

Os embates legais e as tentativas de moderação têm feito com que os próprios organizadores dos grupos ou seus membros mais atuantes diminuíssem o tom. Conforme o UOL acompanhou, as críticas à esquerda, ao PT e especificamente a Lula, incessantemente populares nessas comunidades, estão, de maneira forçada, adotando um tom menos violento.

“Toda essa movimentação que tá tendo em torno do Telegram, isso causa nos membros um cuidado muito grande. Em relação à hostilidade direcionada ao PT e ao Lula, acontece o tempo inteiro, mas agora há pedidos que as pessoas não digam que querem matar petistas, por exemplo, exatamente pelo monitoramento”, afirma Leonardo Nascimento, coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

O laboratório, que estuda o comportamento da extrema direita no Brasil por meio dos grupos no Telegram, tem acompanhado diversas discussões entre membros que estimulam atitudes violentas, muitas vezes armadas, e têm sido repreendidos. A principal preocupação, avalia Nascimento, é um possível monitoramento da Polícia Federal e de outras autoridades, como o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), citado na imagem, embora não tenha esta função.

A reportagem teve acesso a discussões dos grupos, sempre abertos e não oficialmente ligados ao Planalto ou qualquer órgão oficial do governo, em que o ódio à esquerda e aos comunistas é compartilhado.

Atentos às moderações, influenciadores e usuários têm usado codinomes ou trocas de letras para evitar as buscas e tentar burlar a moderação, que eles chamam de “censura”.

Vacina se torna “picada” e vacinado, “inoculado”. STF é escrito com cifrão (“$TF”) e “atirando” ou “atirar”, com números (“atir4ndo” ou “atir4ar”). Há também como deixar as palavras de cabeça para baixo para fugir do algoritmo.

Incentivo e endosso

No início de maio, o carro de Lula foi cercado por bolsonaristas com a camiseta da seleção brasileira quando ia para uma visita à Unicamp (Universidade de Campinas). Entre os grupos, embora não seja possível estabelecer qualquer tipo de organização, atos como este são celebrados e estimulados.

Após o acontecimento, em 5 de maio, diversos grupos de apoio ao presidente e pró-armamentistas já compartilhavam o vídeo do cerco, com palavras de ordem e ofensas ao presidente.

Desde que Lula foi solto, em novembro de 2019, tem sido comum entre bolsonaristas e críticos do petista a narrativa de que ele “não consegue andar nas ruas”. Com atos como este, o posicionamento é endossado nos grupos.

Eles [grupos de direita] funcionam segundo a lógica de mobilização por ameaça. O tempo inteiro é falando sobre os ‘inimigos’. Então, eles cavam uma trincheira. Se há presença física, precisam reagir. No entendimento deles, essas caravanas sinalizam uma ameaça aos seus valores políticos.Leonardo Nascimento, coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA.

Na última semana, em viagem a Minas Gerais, Lula também enfrentou protesto de bolsonaristas em Juiz de Fora, cidade em que o presidente sofreu a facada durante a campanha de 2018, mas de forma pacífica: os manifestantes ficaram longe, sem qualquer intervenção física.

“Obviamente, nem todos vão passar a ato, mas existe uma massa de apoiadores, um braço armado que estão dispostas para tudo”, afirma Nascimento.