Com reconversão, 100 trilhões irão virar um bolívar na Venezuela

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Pegue o orçamento anual de um país petrolífero e guarde-o na moeda local. Espere 14 anos e esse dinheiro, equivalente então a U$ 50 bilhões (R$ 271,5 bilhões), valerá U$ 0,25 (cerca de R$ 1,4). Improvável? Aconteceu na Venezuela.

Na sexta-feira (24), uma reconversão monetária entra em vigor na Venezuela, que removerá zeros do enfraquecido bolívar pela terceira vez desde 2008. Serão seis zeros eliminados, chegando a 14 no total.

Um milhão de bolívares, cerca de 25 centavos de dólar insuficientes para comprar um pão, será um bolívar. O mesmo bolívar equivalia a 100 trilhões de bolívares em 2007, quando o orçamento nacional chegou a 115 trilhões de bolívares, mais de U$ 50 bilhões.

Salários diluídos

Os salários, ao longo dos anos, despencaram. “Recebemos menos de três dólares a cada quinzena”, disse à AFP Marelys Guerrero, uma professora de 43 anos que recebe milhões que não valem nada.

O antigo cone monetário (conjunto de notas e moedas) coexistirá por alguns meses com o novo e suas denominações: uma moeda de um bolívar e notas de 5, 10, 20, 50 e 100 bolívar.

Marelys tem medo de arredondar. Se algo permanecer em 4,5 após a conversão, “não custará 4,5, mas 5”, diz essa mulher em uma loja em Chacaito, área comercial de Caracas.

Com os venezuelanos tentando se proteger da maior inflação do mundo, projetada em 1.600% para este ano pela empresa privada Ecoanalítica, o dólar desbancou o bolívar e mais de dois terços das transações na Venezuela são feitas nessa moeda, segundo pesquisas privadas.

A situação levou a uma escassez crônica de dinheiro em espécie e relegou o bolívar a transações com cartões de débito e transferências bancárias. As poucas notas que circulam são usadas basicamente no transporte público.

O presidente Nicolás Maduro fala em “bolívar digital”, pedindo a “digitalização” total dos pagamentos. Essa ideia é uma rendição antecipada, afirma Luis Arturo Bárcenas, da Ecoanalítica.

“Certamente não haverá caixa suficiente (…). Está reconhecendo que não tem capacidade de emitir todas as notas do bolívar de que precisa”, explica o economista.

Os sistemas bancários serão paralisados na noite de quinta-feira para ajustes técnicos.

Zeros intermináveis

Enquanto Marelys teme novos saltos inflacionários, trabalhar com seis zeros a menos conforta o contador Rodrigo Bermúdez.

“É um alívio para nós”, diz Bermúdez, que mostra à AFP uma fatura, na qual a cobrança precisava ser dividida em quatro partes para ser incluída nos sistemas de contabilidade de sua empresa. São números intermináveis. “A quantidade de dígitos tornava tudo muito complicado”, acrescenta.

As reconversões eram comuns na América Latina, especialmente em tempos de hiperinflação em países como Argentina, Brasil e Peru nas décadas de 1980 e 1990. A Argentina chegou a criar outra moeda, o austral, que mais tarde desapareceu para retornar ao peso.

Embora Maduro tenha restringido o gasto público e limitado o crédito, que praticamente desapareceu, os preços continuam subindo, mesmo em dólares.

“Se o esperado é que a inflação se comporte da mesma forma que nos últimos meses, é muito provável que em três ou quatro anos o governo tenha de fazer uma nova reconversão”, alerta Bárcenas.

Essa reconversão ocorre apenas três anos após a anterior, em 2018, que eliminou cinco zeros do bolívar.

“Compro dólar”

“Compro dólar”, gritam jovens com bolos de notas de bolívar em um ponto de ônibus nos arredores de Caracas. Na falta de dinheiro, os ônibus e as paradas se tornaram casas de câmbio móveis.

A imagem tornou-se cotidiana depois que o dólar foi banido das ruas por 15 anos por um controle cambial estabelecido pelo falecido Hugo Chávez em 2003.

Embora ainda exista, esse mecanismo foi mais tarde flexibilizado devido à queda da receita em decorrência do colapso da indústria petroleira venezuelana e as sanções internacionais contra o país.

Maduro chama a dolarização informal de “válvula de escape”.