Contra armas como cargo e algema, nossas armas são a caneta e a palavra. Será que eles aguentam essa peia?

Charge Leonel Feitosa Na Mira do Radar

Toda vez que via ser noticiado casos de agressão a jornalistas imediatamente me vinha a mente a seguinte pergunta: Do que será que esses caras têm medo? Falei o verbo no passado – me vinha a mente – porque faz algum tempo que cheguei a seguinte conclusão: a questão é que jornalistas deixam esses caras “nus”, deixando ver o que eles realmente são. Diante de jornalistas, eles mostram a verdadeira face por trás da máscara da tal de autoridade tão somente conquistada com cargos, distintivos, revólveres e algemas. A lente de uma máquina consegue captar a alma pequena de gente que só se sente grande ao dizer: “você está preso por desacato a autoridade”.

E isso serve exatamente para o que aconteceu com o repórter fotográfico Clóvis Miranda, que foi algemado e preso por um funcionário do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) – não é agente de trânsito e nem policial. O fato aconteceu durante a realização do carnaval da Banda do Galo da Madrugada (em manaus), no dia 9 de fevereiro, enquanto Clovis Miranda fotografava policiais militares usando balas de borracha e gás lacrimogênio para dispersar pessoas que participavam de um tumulto.

A alegação do dito funcionário do Detran é de que Clóvis Miranda estava tentando impedir a apreensão dos carros detidos na blitz. Impedir usando uma máquina fotográfica? Qual a interferência que fotografias podem fazer na apreensão de veículos? Se os agentes de transito tinham a plena certeza de que estavam agindo dentro dos ditames legais e, por isso, no estrito cumprimento do dever, porque se preocupar com um fotógrafo que está fazendo imagens?

Essas perguntas não vão encontrar respostas oficiais. Assim como os fatos que cercam a prisão do jornalista não foram explicados, até o momento, pelo diretor do Detran, Leonel Feitosa, nem que seja pra exercer o direito (e o dever) de insistir – e provar, é lógico! – que seu subordinado tomou a decisão acertada ao algemar e deter o jornalista. Ou, no caso contrário, ou seja, do servidor público ter cometido abuso de poder, ele ser punido pelo diretor do Detran com a mesma autoridade que disse ter para prender alguém.

Mas, nenhuma coisa, nem outra vai acontecer. Todos os caras que agem dessa forma ou apoiam esse tipo de atitude, acreditam de pé junto que nós, o Zé Povinho, jornalistas ou não, temos memória curta. “Daqui a pouco, esquecem”, dizem eles sobre nós. Mas, como diria minha velha mãe cabocla, semianalfabeta mas sábia, “quem bate esquece, mas quem apanha não”. E, pra truculência, o remédio é inteligência. E se eles pensam que suas armas doem, será que aguentam uma peia dada com a caneta e as palavras? (Any Margareth)