Corrupção no Amazonas: dos condomínios de luxo da Ponta Negra às mansões de Orlando

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Foto: Divulgação

Logo que o Radar se deparou com a estranha – pra não dizer coisa bem pior – compra de ventiladores pulmonares com visível sobrepreço em uma loja de vinhos e que o caso virou matéria no dia 13 de abril de 2020, passamos a receber várias informações tão estarrecedoras que, confesso, mesmo eu que já vi de tudo em mais de três décadas de jornalismo, cheguei a duvidar de várias dessas informações. Afinal, quem vai acreditar que uns caras que vivem falando de Deus – tem gente até que se diz evangélica! – vão se juntar pra fazer negociata e ganhar dinheiro, mesmo que isso custe a vida de alguém, né mesmo?

E foram essas informações que me vieram à mente enquanto ouço, na Live do Radar, o delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado, Henrique Albergaria Silva, confirmar o que me pareceu inacreditável meses atrás.

As declarações do delegado são objetivas, frases curtas e informações resumidas, sem entrar em detalhes, o que é normal em entrevistas dadas por autoridades policiais durante investigação em curso.

Mas o delegado fala, por exemplo, em “triangulação” dos negócios e do dinheiro entre as empresas que participaram da comercialização dos ventiladores pulmonares que até mesmo o governador do Estado, Wilson Lima, insistiu em ficar chamando de respiradores, como forma de justificar o sobrepreço na compra desses equipamentos.

Essa expressão “triangulação” é o mesmo que as fontes dos Radar confidenciaram sobre as “cruzetas” feitas por personagens desse governo – alguns já vêm operando desde governos anteriores – que se unem por causa dos mesmos interesses de tão somente ganhar muito dinheiro, seja de que jeito for e não importa as consequências para a população.

As “cruzetas” são assim: um grupo se une pra fazer uma roubalheira de dinheiro público, um empresta dinheiro pro outro comprar equipamentos que vão sendo superfaturados seguidas vezes, até ser vendido pro governo por um valor ainda maior e o lucro da gatunagem é rateado pelo grupo. A maior parte desses valores vai parar no exterior para não cair na malha fina da receita e tornar mais difícil uma investigação sobre formação de quadrilha, o desvio do dinheiro público e a lavagem de dinheiro sujo da corrupção.

Os caras são vizinhos em condomínios de luxo na Ponta Negra e fazem parte daquele grupo dos que têm residências nas “terras da Disney”, mansões em Orlando, na Flórida – tudo a ver com o rato Mickey ou com ratatouille né mesmo? Eles estão sempre perto uns dos outros, são compadres, na vida e das negociatas. Assumem até a função de “sócios ocultos” nas empresas uns dos outros, afinal ser sócio, mesmo que oculto, é a segurança de que o membro da quadrilha vai receber seu percentual na roubalheira e ninguém o grupo vai ficar com a parte do outro no rateio do dinheiro tirado dos cofres públicos.

Isso tem tudo a ver com as informações que o Radar já tinha e com o que diz o delegado da PF quando fala que o dinheiro do superfaturamento da venda dos respiradores ao Governo de Wilson Lima foi parar numa conta no exterior de uma empresa de fachada, que nem existe de fato, porque o endereço é de uma residência em Orlando.

A residência é de um empresário que foi preso nessa segunda fase da Operação Sangria, que mora num condomínio de luxo na Ponta Negra, mas também tem casa em Orlando, tendo na vizinhança outros personagens dessa história, só que em outro tipo de negociata, desta vez na Secretaria de Educação do Estado (Seduc), que também já estão na mira da Procuradoria Geral da República (PGR) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ).