Covas: negociações sobre vacinas foram suspensas após fala de Bolsonaro

Rafaela Felicciano/Metrópoles

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A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid encerra os trabalhos da semana com o depoimento do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas. A oitiva teve início às 10h desta quinta-feira (27/5).

Aos senadores, Covas afirmou que o Butantan ofertou, em julho do ano passado, 60 milhões de doses da vacina contra a Covid-19, e essas unidades poderiam ser entregues no último trimestre de 2020. Segundo Covas, não houve avanço nas negociações.

“Fiz um outro ofício no dia 7 de outubro, reafirmando os ofícios anteriores, e oferecendo 100 milhões de doses. Desses 100 milhões, 45 milhões seriam produzidas até dezembro de 2020, 15 milhões no fim de fevereiro e 40 milhões até maio”, explicou.

Apesar da primeira oferta ter sido enviada ainda em julho, somente em outubro as negociações com o governo federal avançaram. O acordo, no entanto, foi suspenso após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em 21 de outubro, ter declarado que o Brasil não compraria a vacina chinesa.

“No dia 20 de outubro, fui convidado pelo então ministro da Saúde [Eduardo Pazuello] para uma cerimônia no Ministério da Saúde, na qual a vacina seria anunciada como a ‘vacina do Brasil’. A partir desse ponto, é notório que houve uma inflexão – e eu digo isso porque, no final da reunião, no outro dia de manhã, em que haveria conversações, infelizmente, as negociações não prosseguiram, porque houve uma manifestação do presidente da República dizendo que a vacina não seria, de fato, incorporada”, explicou.

O Butantan é um dos produtores nacionais de imunizantes contra o novo coronavírus. O instituto desenvolve, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, a Coronavac – que corresponde a 65% das doses de vacinas aplicadas no Brasil, segundo o Localiza SUS, plataforma do Ministério da Saúde.

Covas ressaltou que o governo federal não prestou auxílio financeiro para produção dos imunizantes. “Até este momento, não houve nenhuma [ajuda financeira do Ministério da Saúde para produção e desenvolvimento de vacinas]”.

O imunizante começou a ser aplicado no país em 17 de janeiro deste ano, após muitas divergências políticas entre a gestão federal e o governo de São Paulo, ao qual o Butantan é ligado.

O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirmou que o depoimento de Dimas Covas é “um dos mais esperados” pelo colegiado. “A Coronavac é a vacina que, hoje, imuniza oito de cada 10 brasileiros. São notórios o conhecimento e as informações das resistências que essa vacina teve para ingressar no país e, depois, para ser adquirida pelo Ministério da Saúde”, disse.

Os senadores questionam Covas sobre as tratativas, entre a entidade e o governo federal, para compra de doses e transferência de tecnologia, além da previsão de entrega de novos imunizantes e da expectativa de produção de fármacos pelo instituto.

Outro assunto que esta na pauta da maioria opositora ao governo federal é o atraso na entrega de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) — necessários para produção das vacinas —, provocado por crises diplomáticas entre o Brasil e a China, estimuladas por membros do Planalto, incluindo o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Convocações

Nesta quarta-feira, em uma sessão tensa, senadores aprovaram a convocação de nove governadores, a reconvocação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga e do ex-ministro Eduardo Pazuello, além de pessoas supostamente ligadas ao “ministério paralelo”, grupo informal de aconselhamento a Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19.

Entre os convocados, estão o assessor da Presidência Filipe Martins, o empresário Carlos Wizard e o ex-assessor Arthur Weintraub. Este último foi convocado após o Metrópoles publicar reportagem e vídeo indicando que o ex-assessor coordenou o grupo de aconselhamento paralelo de Bolsonaro.

A CPI da Covid-19 tem o objetivo de investigar as ações e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia e, em especial, no agravamento da crise sanitária no Amazonas com o desabastecimento de oxigênio hospitalar, além de apurar possíveis irregularidades em repasses federais a estados e municípios.