CPI descobre que programa do Governo “Anjos da Saúde” custou R$ 6 milhões aos cofres públicos e não teve aval da Susam

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O ex-secretário estadual de Saúde, Rodrigo Tobias, revelou, na tarde desta segunda-feira (29), em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde no Legislativo Estadual, que o projeto “Anjos da Saúde”, que custou R$ 6 milhões aos cofres públicos, foi articulado diretamente pelo Governo, sem ingerência da Secretaria de Estado da Saúde (Susam) e sem seu apoio, na época. Além disso, o programa era coordenado por Carla Pollake – jornalista que não tem cargo/função oficialmente no Governo.

Ele, ainda como secretário, revelou que sequer era convidado a participar das reuniões para implantação do “Anjos da Saúde” e se recusou a assinar o projeto básico e documentos para que o programa fosse implantado. As recusas foram a causa de sua exoneração da Susam, em abril. “Me recusei a assinar o projeto até que houvesse a resolução de pendências com as instituições públicas”, disse o ex-secretário aos membros da CPI da Saúde.

O ex-secretário não soube explicar, por exemplo, qual a função do “Anjos da Saúde”, lançado no ápice do enfrentamento do novo coronavírus no Amazonas, e porque o programa é realizado através da Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (Aadesam) e não pela Susam.

O “Anjos da Saúde” desembarcou no Amazonas junto com a atual secretária da Saúde, Simone Papaiz, no dia 8 de abril deste ano.  O programa foi lançado pelo governador Wilson Lima, na live transmitida nas redes sociais do Governo de apresentação da então nova secretária de Saúde. Na época, Wilson Lima garantiu que Simone Papaiz iria somar no combate ao novo coronavírus e, com o programa, somaria ainda no processo de humanização do atendimento na saúde pública.

No entanto, o cenário visto nas unidades de saúde do Estado foi completamente diferente da “humanização” difundida pelo Governo nas redes sociais para embasar os gastos com o “Anjos da Saúde”: vivos dividindo espaço com mortos nos corredores das unidades da rede pública de saúde, superlotação em todos os hospitais da rede pública, falta de respiradores (foram adquiridos ventiladores pulmonares que não são adequados para pacientes com Covid-19) e falta de equipamentos de proteção individual (EPIs).

Os membros da CPI questionaram, ainda, a influência de Carla Pollake na implantação do “Anjos da Saúde”, mas, sua função no Governo segue sendo uma incógnita.

O deputado Wilker Barreto (Podemos) chegou a questionar o porquê de o ex-secretário Rodrigo Tobias ter acatado as decisões de Carla Pollake, que até onde se sabe, não possui um cargo/função clara no Governo, mas que teria sido responsável pela apresentação de Simone Papaiz, atual secretária da Susam e pela escolha do programa milionário.

O ex-secretário desconversou, não respondeu e pediu que o questionamento fosse  direcionado ao governador Wilson Lima. “Eu não posso fazer afirmações levianas, preciso ter acesso a documentos para poder declarar qualquer coisa. Além disso, este questionamento deve ser feito ao governador e não a mim”, disse o ex-secretário ao ser questionado sobre a posição de Carla Pollake no Governo.

O deputado estadual Francisco Gomes (PSC), o Dr. Gomes, – defensor do Governo Wilson Lima –  argumentou que o “Anjos da Saúde” é extremamente relevante porque tem um viés social. “Este não é um projeto ‘de janela’ e sim de Governo, pela Agência de Desenvolvimento através do viés social, responsável pela seleção de centenas de profissionais da saúde como médicos, psicólogos e advogados”, apontou Gomes.

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Gastos com ambulâncias

Além do “Anjos da Saúde”, os membros da CPI contestaram, ainda,  os valores gastos com ambulâncias durante a gestão de Rodrigo Tobias na Susam. O deputado Wilker Barreto contestou o aumento de gastos com os veículos durante a pandemia.

Segundo ele, em julho de 2019 o valor de cada ambulância ‘tipo B’ (que contam com suporte intensivo para o atendimento) era em torno de R$ 39 mil. Em março deste ano, o valor chegou a mais de R$ 75 mil.  Além disso, os veículos ‘tipo A’ (estruturados com equipamentos mais simples e direcionados a pacientes sem risco de vida) estariam custando R$ 66.382 mil aos cofres públicos.

O ex-secretário admitiu não ter conhecimento específico dos valores. Em seguida, se desculpou, mas defendeu que o gasto deve ter sido em função do contexto de crise sanitária, ocasionado pelo novo coronavírus.

“Peço desculpas, pois sei que enquanto gestor naquele momento, deveria saber. Só poderia explicar minuciosamente com ajuda da minha equipe técnica. Entretanto, deve ter tido a necessidade de tal inclusão do valor em tempos de pandemia”, tentou explicar.