Cresce o número de motoristas que não renovam a CNH em SP

O número de motoristas que não renovaram a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) aumentou na cidade de São Paulo. Em 2015, foram 49.173 renovações. Até julho deste ano, esse número saltou para 136.630, de acordo com dados divulgados pelo Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito), via Lei de Acesso à Informação. Representa uma alta de 177,85%.

Segundo especialistas, os custos de um carro atrelados à crise econômica e alternativas de transportes explicam em parte os dados.

Professor da FEI (Fundação Educacional Inaciana) e especialista em trânsito, Creso Peixoto citou como indicador a essa tendência os custos para se ter um carro. “Há um fato que se evidencia nas grandes cidades de jovens que não querem ser motoristas, que também podem estar por influência de aplicativos de transporte”, afirma.

“Um carro popular de R$ 25 mil, o custo mensal seria de R$ 790, considerando IPVA (Imposto Sobre a Propriedade de Veículos Automotores), depreciação, seguro obrigatório Dpvat, revisão, combustível e estacionamento. E sem contar parcelas do financiamento. Então muitos brasileiros estão sentindo na pele essas contas”, disse o educador financeiro Ricardo Natali.

Para renovar a documentação, o motorista realiza exames médicos (R$ 84,81), em clínicas próximas à sede do Detran, no Bom Retiro (região central de SP), ou até R$ 183,76 somando exame psicotécnico para atividades remuneradas, como táxi.

Em seguida, o condutor gasta R$ 42,41 para receber a CNH no Detran ou R$ 53,41 via Correios. Portanto, as despesas agregadas partem de R$ 127,22 a R$ 237,17.

Para o engenheiro e mestre em transportes pela Escola Politécnica da USP, Sergio Ejzenberg, o excesso de despesas faz o motorista repensar prioridades. “A pessoa que não tem dinheiro, escolhe outras contas para pagar”, afirma o especialista.

Passados dois anos, o marceneiro Luiz Fernando Prado, 53 anos, estava olhando detalhes da nova CNH, após conseguir “enfim” retirar o documento ontem na sede do Detran, no Bom Retiro (região central). O morador do Jardim Aeroporto (zona sul) é um exemplo do quanto pode ser oneroso estar com a documentação em dia. O marceneiro dependeu de transporte público, até conseguir dinheiro para regularizar a habilitação.

“Não tinha problema algum de pontos, a minha CNH venceu. Eu tinha duas empresas, uma faliu e na outra sofremos um golpe, meu casamento acabou e tive de começar a minha vida do zero. Então comecei a vida do zero e não tinha condições financeiras de renovar a carteira. Agora consegui R$ 170 para pagar as duas taxas, a renovação e os exames médicos”, explicou.

Morador no Grajaú (zona sul de São Paulo), o autônomo João Fernandes Willame, 37 anos, teve a CNH suspensa há dois anos.

“Meu amigo se mudou e levei uma multa por causa do licenciamento, porque não tive dinheiro para pagar na época. Aí fui parado pela polícia. Porque estava em bairro, a gente pensa que só porque está em bairro, não vai ser parado. Só que estava sem dinheiro, porque estava afastado no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e o governo não pagava. Então tive que gastar muito para regularizar tudo, mas consegui.”

O número de carteiras de habilitação suspensas na capital está caindo. Em 2017, 246.682 motoristas atingiram 20 pontos na carteira, o suficiente para suspenso, ou cometeram uma infração auto suspensiva. Até julho deste ano, foram 102.709.

Ao mesmo tempo, o número de multas registradas na capital caiu 22,7% nos primeiros cinco meses do ano -4.448.740 autuações contra 5.755.563 no mesmo período de 2017.

Para o engenheiro de tráfego Horácio Augusto Figueira, as estatísticas podem evidenciar aumento de motoristas irregulares. “Acho que a fiscalização diminuiu. Sinalização é imprescindível, mas sozinha não muda a população. Há uma sensação de impunidade.”

Fonte: Folhapress.