Crônica dos crimes propagandeados que não têm sido impedidos em Coari

Euzinha, confesso e assumo, errei. Digo isso porque em texto anterior, intitulado “Os tempos de Melo estão de volta ?!?!”, comparei os crimes eleitorais – quem julgou assim não fui eu, mas a Justiça eleitoral hein! –, que ocorreram nas eleições estaduais de 2014, com os que estão acontecendo nas eleições suplementares em Coari. Agora vejo que não há qualquer parâmetro de comparação, já que os crimes que estão sendo cometidos em Coari ultrapassam todos os limites do possível e até do imaginável.

E o pior dessa história é que os crimes eleitorais são até mesmo anunciados em redes sociais e divulgados em jornais ou nas emissoras de televisão e rádio, nos portais de notícia e em tudo que é canto. Só pra ter uma ideia do absurdo, algumas fotos que vocês estão vendo nessa matéria sobre distribuição de bens e serviços em Coari foram tiradas, pasmem, das redes sociais do próprio governador Wilson Lima e da secretária de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Mirtes Sales – que exemplo de justiça e cidadania, né mesmo? – , num flagrante desrespeito à legalidade e a moralidade na administração pública.

Mas a Lei Eleitoral não determina que a distribuição de bens e serviços durante uma campanha eleitoral, é crime? A resposta logicamente é sim. A lei nº 9.504/97, em seu artigo 73, inciso IV, diz o seguinte sobre a chamada “conduta vedada” ao agente público: fazer ou permitir uso promocional em favor de candidato, partido político ou coligação, de distribuição gratuita de bens e serviços de caráter social custeados ou subvencionados pelo Poder Público.

E se distribuir bens e serviços é ilegal e não há o que discutir, então fica a pergunta do porquê da Justiça Eleitoral do Amazonas não impedir o crime de ser cometido, mesmo o crime tendo sido propagandeado pro Amazonas e até pro Brasil saber. Mas, estranhamente – pra não dizer expressão bem pior – o governador foi mandando ranchos para serem distribuídos em Coari, em pleno período eleitoral, numa visível compra de votos das mais cruéis e indignas que existem, que é a troca de voto por comida. Tudo começou a ser feito às escondidas.

O Ministério Público Eleitoral (MPE) bem que tentou reprimir o crime eleitoral entrando com uma medida cautelar, mas a resposta da Justiça Eleitoral foi que iria primeiro esperar a defesa feita pelo Executivo Estadual e pelo próprio governador – qual defesa existe pra quem anuncia publicamente que vai cometer crimes?

Se ele mandou a tal defesa pra Justiça Eleitoral não se sabe, o que se viu foi que ele decidiu escancarar o crime eleitoral bem na cara da Justiça. Mandou milhares de ranchos para Coari, milhares de cartões do recém-criado “Auxílio Estadual”, sem contar com sua secretária de Justiça, Mirtes Sales usando serviços públicos como emissão de carteiras de identidade para atrair cidadãos/eleitores, tudo isso sendo feito em ginásio lotado – incrível é que falta cédula pra expedir RG em Manaus.

E Wilson Lima ainda achou que era pouco e decidiu escarnecer da cara da Justiça e foi pessoalmente para Coari no sábado passado (20/11) fazer a entrega das doações e no, mesmo dia, participar do comício do seu candidato, Robson Tiradentes. E ainda conseguiu realizar a estratégia criminosa de começar a fazer a distribuição dos ranchos e dos cartões e, depois que o crime já estava em andamento, ao ser impedido pelo MP de continuar, jogou a culpa pra cima do candidato adversário Keitton Pinheiro e do grupo político do qual ele faz parte.

Como disse antes, confesso que errei ao comparar o que está acontecendo em Coari com a campanha eleitoral de Melo, em 2014.

Por muito menos do que Wilson Lima tem feito no Amazonas, Melo foi cassado e preso.