Cúpula da UE chama brexit de inferno e diz que não vai renegociar acordo

Um dia antes da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, ir a Bruxelas para pedir mudanças no acordo de saída do país da União Europeia (UE), a cúpula do bloco enviou um duro recado aos britânicos, negando a possibilidade de novas negociações.
Em uma frase que exemplificou o nível das desavenças políticas na Europa, o presidente do Conselho Europeu (que reúne os chefes de governo e de Estado do bloco), Donald Tusk, afirmou que os defensores do brexit merecem o inferno.”Eu tenho pensando como deve ser esse lugar especial no inferno para as pessoas que promoveram o brexit sem ter nem mesmo um esboço de um plano de como realizá-lo de modo ordenado”, disse Tusk a jornalistas nesta quarta-feira (6) também em Bruxelas, sede da UE.
A frase foi bombardeada pelos parlamentares britânicos a favor da saída do país do bloco. A líder da casa, a conservadora Andrea Leadsom, chamou Tusk de “sem educação” e exigiu que ele pedisse desculpas.

O ex-líder do partido de direita radical Ukip, Nigel Farage, também respondeu ao europeu. “Depois do brexit estaremos livres de provocadores arrogantes e não eleitos como você – e isso soa como o paraíso para mim”, disse ele.

Já grupos a favor da permanência na UE aplaudiram a declaração e o Partido Nacional Escocês disse que a fala do europeu “acertou em cheio” o brexit.
A declaração de Tusk foi complementada, pouco depois, por Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia (o braço executivo da UE), que foi pelo mesmo caminho.

“Sou menos católico do que meu bom amigo Donald. Ele acredita no céu e, por consequência, no inferno. Já eu acredito no céu e não no inferno, com exceção ao que estou fazendo agora, que é o inferno”, disse ele, se referindo também as negociações para o brexit.
No final de 2018, Bruxelas e Londres fecharam um pacto para organizar como o brexit deveria ocorrer – a saída está marcada para 29 de março -, mas ele foi derrubado pelo Parlamento britânico.

No lugar, a Casa aprovou um novo esboço apresentado por May, que agora quer renegociar este plano com a UE. Juckner disse nesta quarta, porém, não há possibilidade de isso acontecer.
No centro do impasse está a questão da fronteira entre a República da Irlanda (país independente que faz parte da UE) e a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido).
Segundo o acordo de paz que pôs fim ao conflito na região em 1998, os cidadãos das duas Irlandas são livres para se movimentarem entre elas, não podendo assim existir uma barreira física na fronteira – o que não era um problema quando todos estavam dentro da UE, mas passou a ser com o brexit.

Segundo a proposta inicial de Bruxelas e de Londres, seria criada uma união alfandegária temporária entre as duas Irlandas (chamada de “backstop”), que possibilitaria que a fronteira permanecesse aberta até que UE e Reino Unido conseguissem negociar um acordo comercial definitivo.

Para os defensores do brexit, porém, a proposta é intragável, porque significa que parte do território britânico deve permanecer sob as regras europeias. Essa ala defende que, no mínimo, o Reino Unido tenha o direito de deixar unilateralmente o “backstop”.

É exatamente esta posição que May deve defender no seu tour por Bruxelas na quinta (7) – mas que Juncker já classificou como inaceitável.
“O brexit não é uma questão bilateral entre a República da Irlanda e o Reino Unido”, disse o presidente da Comissão Europeia em uma entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar.

“É uma questão europeia e é por isso que não podemos aceitar a ideia de que o acordo de saída possa ser reaberto. O ‘backstop’ é parte do acordo de saída e não podemos reabrir a discussão. Ela [May] sabe que a Comissão não está preparada para reabrir a questão”, completou ele.
A primeira-ministra britânica não respondeu às declarações dos líderes europeus, mas um porta-voz de seu governo disse a jornalistas que a UE precisa aceitar as mudanças se quiser evitar a hipótese de saída sem acordo (o “no-deal”).

Para piorar a situação, o partido irlandês Sinn Fein afirmou que a separação de fato aconteça sem acordo – o que significa que as fronteiras teriam que retornar -, Londres deve permitir um plebiscito para para unificar as Irlandas.
O acordo de paz de 1998 estabeleceu que caso a maioria da Irlanda e da Irlanda do Norte se manifestasse a favor da reunificação em algum momento no futuro, o governo britânico seria obrigado a permitir que ela ocorresse.

No plebiscito que decidiu pelo brexit em 2016, a maior parte norte-irlandeses votou a favor da permanência na UE, embora historicamente também tenha sido a favor que a região continue no Reino Unido.