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Da hegemonia à revanche: Juventus e Ajax revivem confronto que decidiu Champions duas vezes

Nesta terça-feira, Ajax e Juventus se reencontram pela partida de volta das quartas de final da Liga dos Campeões. Após o empate em Amsterdã na ida em 1 a 1, os clubes disputam uma vaga entre os quatro melhores da Europa. Em toda história da competição, as duas equipes já se enfrentaram 13 vezes, com seis vitórias para os italianos, duas para os holandeses e cinco empates. A maioria desses jogos foi em fases iniciais do torneio, mas, em duas ocasiões, os dois times se encontraram em finais que ficaram marcadas na memória de seus torcedores e que entraram para a história da maior competição de clubes do mundo.

A temporada de 1972/1973 marcou o auge da revolução promovida pelo Ajax desde a introdução do chamado “Futebol Total”. Coincidentemente, este também foi o momento da derrocada do futebol holandês.

Para entender esse sucesso, é necessário voltar um pouco no tempo. Para a década de 1960, mais precisamente. Naquele momento, a sociedade holandesa vivia uma intensa revolução. Os jovens, inspirados pelos filmes hollywodianos e pela música pop dos Beatles, mudaram a feição do país. De um lugar cinza e mal resolvido com sua história recente de ocupação e colaboração com as tropas nazistas, Amsterdã e a Holanda se transformaram em um lugar agitado e transgressor.

É nesse contexto político e social que o futebol holandês passa da era do amadorismo para o profissionalismo, e brinda o mundo com o surgimento do time do Ajax encarnado em seu maior ícone, Johan Cruyff. O ideólogo desta revolução futebolística toda responde pelo nome de Rinus Michels. Foi ele o primeiro técnico a exigir investimentos na estrutura do clube: reformulou os contratos transformando os jogadores em profissionais e cobrou dedicação exclusiva de todos com a instituição.

Era claro que tudo isso daria resultado. E que resultado. Em 1970, o Feyenoord se tornou o primeiro campeão holandês da Taça dos Campeões (nome dado a atual Liga dos Campeões). A vitória contra o Celtic, da Escócia, abriu caminho para um domínio holandês que duraria mais três anos. Na temporada 1970/1971, o Ajax, enfim, conseguiu transportar sua hegemonia local para os campos internacionais. Michels encontrou o time ideal que passou por cima de Basel, Celtic e Atlético de Madrid até ganhar do Panathinaikos na final.

Cansado, o treinador preferiu deixar o clube rumo a Barcelona. Para seu lugar, chegou o romeno Steven Kovacs, que decidiu mexer o menos possível na equipe. Em 1972, o Ajax alcançou seu segundo título europeu seguido. A vitória contra a Inter de Milão foi o triunfo do jogo ofensivo sobre o reativo “catenaccio” italiano.

Finalmente, a temporada de 1972/1973 teve um enredo muito parecido. Mudou o adversário na final, mas não o estilo de jogo. A Juventus, que contava com craques como Zoff, Capello e Altafini, preferia usar um estilo mais conservador. A final, em Belgrado, foi comemorada como o milésimo jogo da história da competição. Diante de 90 mil pessoas, o Ajax, que já havia deixado pelo caminho o CSKA Sofia, o Bayern de Munique e o Real Madrid, bateu a Juventus por 1 a 0 e se consolidou como a grande força do futebol bem jogado.

O modelo do Ajax tinha chegado à tamanha perfeição tática que, paradoxalmente, alcançou seu fim. Os problemas internos começaram a ficar evidentes. As disputas de ego no elenco se sobressaíram e o desmanche foi inevitável. Cruyff foi para o Barcelona, onde encontraria seu mentor, assim como Neeskens. Mühren, Rep, Haan e Blankenburg seguiram caminhos parecidos e deixaram o clube. O futebol holandês, que havia alcançado o máximo protagonismo no futebol europeu, entrou em colapso e só voltou a ter um campeão da maior competição do continente na temporada 1987/1988 com o PSV.

A temporada de 1995/1996 foi especial para a Juventus. O segundo título da Velha Senhora na competição serviu para exorcizar um fantasma. A única vez que os bianconeri gritaram é campeão havia sido, até então, na polêmica tarde em Heysel, quando a Uefa ignorou a morte de 39 torcedores nas arquibancadas do estádio e obrigou Liverpool e Juventus a disputar uma final que ninguém queria mais jogar.

Treinada por Marcello Lippi, que mais tarde viria a ser campeão do mundo com a seleção italiana em 2006, a Juventus mesclava as habilidades do jovem Del Piero com as dos experientes Gianluca Vialli, Antonio Conte e Didier Deschamps.

Um dos favoritos desde o início da competição, o clube italiano passou com folga no grupo. Nas quartas de final, eliminou o Real Madrid após perder o primeiro jogo no Bernabéu e ganhar o segundo em Turim. Na semifinal, foi a vez do Nantes, uma das sensações daquela edição, ficar pelo caminho. Em Roma, Juventus e Ajax se reencontraram 23 anos depois em uma outra final. Para os italianos, era a chance da revanche. Para os holandeses, a possibilidade de conquistar o segundo título seguido.

Na temporada anterior, o Ajax, com um time formado majoritariamente em suas categorias de base e que contava com Van der Sar, Frank Rijkaard, Clarence Seedorf, Edgar Davids, Patrick Kluivert, Marc Overmars e Jari Litmanen, foi campeão contra o Milan. Em 1996, no entanto, Rijkaard se aposentou, e Seedorf foi para o Real Madrid. Mesmo assim, os comandados por Van Gaal não podiam ser desprezados.