Dados da própria FVS-AM desmentem informações do governador sobre a Covid-19

© Marcello Casal jr/Agência Brasil

Levantamento feito pelo Radar, durante o período de um mês, mostram que as informações oficiais da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), publicadas através de Boletins Diários, revelam que a maioria dos leitos ocupados por pacientes infectados pela Covid-19 são da rede pública, colocando à prova a declaração do governador Wilson Lima que afirmou que os novos casos da doença estavam se manifestando principalmente entre as classes A e B, segmentos sociais que possuem planos de saúde privados. As informações da FVS também trazem dados alarmantes como o registro de mais 18 mil casos de doença em um mês.

Os dados apurados pelo Radar apontam que, durante o período de um mês, – dia 25 de agosto a 25 de setembro- o Amazonas registrou mais de 18 mil casos da doença e, nessa sexta-feira (25), foram mais 916 casos da doença em apenas um dia.  O número de pessoas internadas é de 334 pacientes. Desse total, 58% dos internados se concentram na rede pública de atendimento.

Durante esta última semana, entre os dias 18 e 25 de setembro, os números de novos casos no Estado oscilaram, chegando a registrar 1.214 diagnósticos em um dia.

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Taxa de ocupação de leitos na rede pública 

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Foto: Reprodução

Segundo os dados do último boletim diário da própria FVS, que vem constantemente contradizendo as declarações do governador, os 196 pacientes internados na rede pública até sexta-feira ocupam 42% do total de 460 leitos que, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SEA-AM), estão disponíveis na rede pública de saúde exclusivamente para o atendimento dos novos infectados.

A Fundação de Vigilância e Wilson Lima seguem insistindo que não há perigo de uma nova onda, mas na última quinta-feira (24) o governador decretou o fechamento de diversos estabelecimentos de atividades não essenciais e proibiu a realização de eventos, deixando claro que a situação realmente está caminhando para um rumo complicado e evidenciando a preocupação do governador que, durante o pico da pandemia gastou milhões, na compra de ventiladores pulmonares (inadequados para o tratamento intensivo contra a Covid) de uma loja de vinho e investiu milhões em propagandas publicitárias.

Esse aumento contínuo de infectados e as medidas de restrição que estão sendo adotadas têm levantado dúvidas sobre a possibilidade de uma segunda onda de casos da Covid-19 no Amazonas.

Segunda onda

De acordo com o professor Doutor Alexander Steinmetz, que é doutor em Matemática e tem acompanhado através de estudos numéricos o comportamento social da covid-19 durante a pandemia, o Amazonas já está caminhando para uma segunda onda.

Alexandre ressalta que, a nova onda será diferente da primeira, que resultou na morte de milhares de amazonenses em um período curtíssimo de tempo, pois ela será menos “explosiva” e mais “arrastada”, mas que nem por isso é menos perigosa.

“A segunda onda ainda custará muitas vidas. Ela pode se manifestar de maneira gradual, mas pode causar muito transtorno”, alertou.

Nesse sentido, Alexandre afirma que esse novo cenário desmente a possibilidade de existir uma imunidade de rebanho no Amazonas, teoria que vinha sido cogitada, mas que, de acordo com ele, era condenada por especialistas. Além disso, o professor revela que o Estado retornou a essa situação de perigo e propagação desgovernada do vírus devido uma série de escolhas e atitudes equivocadas, como o retorno das aulas presenciais.

“Essa situação é fruto de uma série de escolhas, como as últimas decisões políticas relacionadas a abertura das escolas. Tal decisão foi um dos pontos que colaborou para o aumento de casos da doença no Estado”, revelou.

Volta às aulas

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Foto: Reprodução/Internet

Desde o início da retomada das aulas presenciais na rede estadual de ensino, no último mês, com atividades de descontaminação de escolas por parte da Seduc que os professores dizem ser precárias, mais de 2 mil professores já foram infectados pela doença e alguns deles chegaram a perder a vida, conforme aponta o Sindicato dos Professores e Pedagogos das Escolas Públicas de Manaus (Asprom Sindical), que vem tentando dialogar com Wilson Lima e segue sem resposta.

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Foto: Rafael Braga/ Radar Amazônico

Mas, mesmo diante desse cenário de desespero dos professores e o perigo constante dos alunos levarem a doença a familiares mais velhos ou que fazem parte do grupo de risco por outras comorbidades, o novo decreto do governador não suspendeu às atividades presenciais nas escolas de ensino médio do Estado e ainda anunciou o início das aulas presenciais no ensino fundamental. O governador apenas anunciou o fechamento de bares, flutuantes e casas noturnas sob a alegação “não vai deixar baladas abertas e escolas fechadas”.

Estrutura dos hospitais e atendimentos 

Tendo em vista que os hospitais públicos do Amazonas atualmente já estão em situação caótica, pois nem sequer há aparelhos de tomografia para a realização de exames que são decisivos para salvar a vida de pacientes, o Radar entrou em contato com a Susam (mudou de nome para SES-AM) e questionou se as unidades hospitalares estão preparadas para receber a nova demanda de pacientes infectados que tem aumentado diariamente.

Em resposta, a secretaria afirmou que 460 leitos estão disponíveis para atender a população, desse total 384 leitos são para o Hospital Delphina Aziz, o mesmo que é administrado por uma Organização Social (OS) que é alvo de investigação da CPI da Saúde por receber mais de 16 milhões e não oferecer atendimento durante a pandemia.

O restante das vagas na rede estadual de saúde pública estaria, segundo a Susam (agora mudou de nome para SES), estaria disponível em outros hospitais como o Platão Araújo e 28 de agosto. Com isso, fica claro que mais uma vez o governo do estado não está tendo cuidado em encaminhar os infectados pela covid-19 para uma unidade de referência no tratamento da doença – isso foi anunciado pelo governador Wilson Lima, no início da pandemia, mas nunca foi cumprido – expondo pacientes afetados por outras comorbidades como doenças cardíacas e crônicas (que integram o grupo de risco) ao perigo de infecção por coronavirus.

Posicionamento da FVS

A reportagem também tentou questionar, através de mensagens enviadas através de e-mail, qual vai ser posicionamento da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) sobre o aumento expressivo de casos e quais medidas ela adotará nessa nova fase de isolamento social, mas até a publicação desta matéria não obtivemos respostas.