Datafolha: 54% rejeitam a nomeação de militares para cargos no governo Bolsonaro

Jair Bolsonaro participa de cerimônia de posse no Ministério da Defesa, em 2019 - Pedro Ladeira - 2.jan.19/Folhapress

Jair Bolsonaro participa de cerimônia de posse no Ministério da Defesa, em 2019 – Pedro Ladeira – 2.jan.19/Folhapress

A maior parte da população rejeita a nomeação de militares para cargos no governo federal, de acordo com o Datafolha.

Pesquisa feita pelo instituto nos dias 11 e 12 deste mês aponta que 54% dos entrevistados são contrários à presença dos fardados nesses postos, ante 41% que são favoráveis.

Não souberam opinar 5% dos entrevistados. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O Datafolha ouviu de maneira presencial 2.071 pessoas em todo o país, e o nível de confiança é de 95%.

Um ano atrás, o instituto também fez esse questionamento, e a rejeição às nomeações também venceu: 52% se disseram contrários à presença dos militares no governo, ante 43% favoráveis.

Promessa de campanha do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a indicação de militares para ministérios e outros cargos de relevância atingiu na atual gestão níveis inéditos desde o fim do regime militar, em 1985.

Bolsonaro, ele próprio um capitão reformado do Exército, hoje tem sete ministros militares. Até postos de perfil puramente político, como a Secretaria de Governo, que organiza a articulação junto ao Congresso, chegaram a ficar com os fardados.

A Casa Civil, hoje ocupada por Luiz Eduardo Ramos, general da reserva, já esteve a cargo de Walter Braga Netto, também general da reserva e hoje titular da pasta da Defesa. Ramos, amigo de Bolsonaro da época de preparação militar, foi recrutado para o alto escalão em 2019 ainda quando era oficial da ativa e chefiava o Comando do Sudeste.

Por um lado, a nomeação de indicados oriundos de um ramo que costuma ser bem avaliado junto à população atendeu a uma demanda de parte de seu eleitorado por mudanças em práticas políticas.

De outro, supriu a falta de nomes técnicos da base do presidente, eleito por um partido pequeno e com poucos aliados formais.

Milhares de militares assumiram postos em variadas áreas da estrutura estatal. Reportagem da Folha em março mostrou que, no topo de 19 estatais vinculadas à União, havia 92 integrantes das Forças Armadas —dez vezes mais do que em 2018, na gestão de Michel Temer.

Estão em posições tão diversas como as chefias dos Correios, da Valec (estatal de infraestrutura ferroviária) e da Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), vinculada ao Ministério da Educação. Um general assumiu ainda a principal empresa brasileira, a Petrobras, e o vice-presidente, Hamilton Mourão, também é oficial da reserva.

Já na campanha eleitoral, o entorno do presidente era composto por fardados, como o agora ministro Augusto Heleno, do GSI (Gabinete de Segurança Institucional).

Do ponto de vista dos militares, houve benefícios na atual gestão, como o plano de reestruturação da carreira e a continuidade de gastos em projetos da Marinha e da Aeronáutica.

A atuação dos integrantes das Forças, porém, ficou fortemente desgastada com a passagem de Eduardo Pazuello pelo Ministério da Saúde, encerrada em março.

General da ativa, ele assumiu o comando da crise sanitária do país após as gestões de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que se queixavam da pouca autonomia concedida pelo presidente.

Pazuello promoveu uma militarização de postos na Saúde, se alinhou às ordens de Bolsonaro e acabou marcado pela demora na articulação da compra e produção de vacinas.

Hoje, ele está sob investigação na CPI da Covid, no Senado, e em inquérito que trata da omissão na resposta à crise do coronavírus em Manaus, no início do ano.

Na gestão Pazuello, os militares insistiam para que ele fosse para a reserva, o que contribuiria para desvincular as Forças Armadas das medidas do atual governo. Então comandante do Exército, Edson Pujol disse publicamente que militares não deveriam estar na política.

Em março, ele acabou deixando o posto, assim como os chefes da Marinha e da Aeronáutica, por atritos com o presidente. As exonerações em conjunto foram a maior crise militar no país desde 1977.

Na contramão, Bolsonaro tem reforçado diante de seus apoiadores o vínculo com as Forças Armadas, também como estratégia de resposta à crise política decorrente da gestão da pandemia da Covid-19.

O presidente já deu declarações, por exemplo, falando em “meu Exército” ao se referir à instituição.

Uma parcela de seus apoiadores parece mais afeita a esse tipo de declaração. Segundo o Datafolha, entre quem avalia o atual governo como ótimo ou bom, a aprovação à presença dos militares em postos do governo sobe para 75%.

Entre homens, os favoráveis somam 46%. No recorte regional, o apoio é maior no Sul (44%) do que no Nordeste (39%).

Já entre os entrevistados que dizem ter “muito medo” do novos coronavírus, a rejeição à nomeação dos fardados salta para 61%.

Também declararam maior rejeição à presença de militares os entrevistados com ensino superior (58%), funcionários públicos (62%), eleitores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT (69%).